As histórias em quadrinhos de Lalla Dalla

Por Caio Machado

Lalla Dalla e uma edição de "O Sonho de Nick"
Desde que se entende por gente, Laís Dallariva gosta de desenhar. Sempre foi vista pelas pessoas que a cercavam como referência em ilustração, mas só foi levar a sério o que se tornaria carreira, aos 10 anos de idade. Na ocasião, ela passou a guardar os trabalhos em pastas e datar tudo que desenhava.

Inicialmente ela ilustrava a lápis e depois coloria. Aos 12, já finalizava com caneta e preenchia as cores com lápis. Com 14 anos, descobriu a arte digital e trabalhava com o mouse. Depois “Lalla Dalla”, como gosta de ser chamada, obteve uma mesa digitalizadora, que facilitou muito na concepção das ilustrações.

Lalla está com 20 anos e na década que passou ilustrando, concluiu seis histórias em quadrinhos, que foram publicadas fisicamente e digitalmente, ilustrou um livro infantil (A Caixa de Dandara, da professora Eliane Alves da E. M. Norma Borges Beluco), e recebeu dois prêmios (um na Fenamilho e outro no Balaio de Arte e Cultura).

Influência musical
Por mais que seja quadrinista, a inspiração mor de Lalla Dalla surge por meio da música. Desde criança ela ouvia discos de MPB com a mãe, e a fascinação pelos sons se consolidou. “Escuto música o tempo inteiro, só paro se eu precisar conversar com alguém ou fazer algo que demande muito foco”, contou.

Alguns dos trabalhos impressos
Ela associa as histórias em quadrinhos que cria com os álbuns de música que escuta, pois acredita que os discos possuem identidade própria e também contam histórias. “Não sou uma pessoa de singles, e sim de álbuns. Quero que meus quadrinhos soem para os leitores, como um bom álbum soa para mim”.

Como toda criança comum, Lalla Dalla cresceu lendo títulos da Disney e da Turma da Mônica, mas a reviravolta que fez com ela se entregasse ao universo das HQ’s, veio por volta dos 14 ou 15 anos, após a leitura da famigerada novela gráfica “Sandman”, do escritor britânico Neil Gaiman, lançado pelo selo Vertigo.

“A partir dali, percebi o quão profundo podem ser as histórias em quadrinhos e como elas tem o poder de tocar em questões importantes sobre a vida e a humanidade”. Por coincidência, Gaiman nasceu em 10 de novembro, mesma data em que ela faz aniversário. “Não sei se isto foi um sinal, mas eu resolvi dar significado a esta descoberta, me dedicando de vez às histórias em quadrinhos”.

Laís consome todos os tipos de gêneros de quadrinhos. Além das editoras principais como Marvel e DC Comics, ela também gosta de ler trabalhos de artistas independentes. Uma série de HQ’s que ela gosta bastante é “The Wicked + The Divine”, obra contemporânea permeada por influências da música pop, com roteiros de Kieron Gillen e ilustrações de Jamie McKelvie.

Um ano de descobrimento
Em 2018, ano que Dallariva acredita se tratar do próprio big bang de sua vida, ela entrou para o curso de Publicidade e Propaganda no Centro Universitário de Patos de Minas (Unipam), passou a fazer histórias em quadrinhos para valer, e de quebra, juntou-se ao Centro de Formação das Artes do Palco Primeiro Ato.

O primeiro quadrinho que ela publicou foi neste ano. “O Sonho de Nick” narra a trajetória de um artista triste que nunca sai de casa, mas após sonhar com uma fada que prestes a morrer, apoia-se no amigo Khalid para encontrar a cura e evitar o trágico destino.

“Eu não tinha certeza se queria fazer faculdade, pois acreditava que acabaria com o tempo que eu dedicava aos quadrinhos, mas foi em 2018 que muita começou a acontecer para mim, conheci muitas pessoas e o alcance da minha obra aumentou”, disse Lalla Dalla.

Por meio da faculdade ela foi contratada para ilustrar “Resistere”, uma história em quadrinhos que retrata o período da Ditadura Militar no Brasil, fruto de uma parceria entre alunos dos cursos de História e Publicidade e Propaganda do Unipam. O trabalho impresso chegou a figurar entre os mais vendidos da extinta Craft Comic Books.

Ainda neste ano, a convite de Marcos Nepomuceno, diretor do Primeiro Ato, ela ilustrou os cartazes das cinco peças do III Festival de Teatro, que ocorreram entre os dias 14 a 18 de novembro. “Foi uma experiência fantástica, que gostaria muito de repetir”, disse Dalla, que também atuou em um dos espetáculos.

Os cartazes ilustrados para o III Festival Primeiro Ato
A experiência com o teatro a fez expandir os horizontes, pois com os quadrinhos, ela trabalha de forma individual. E já com o Primeiro Ato, ela atua em um coletivo que produz os próprios textos e compões as próprias canções. Em 2020, ela começou a escrever a peça “O Mar” com os colegas da companhia teatral, mas devido à pandemia ainda não há previsão de estreia.

Obras e leitores
Com todo o amor que sente pela música e pela forma que se expressa com os desenhos e recentemente, o teatro, Laís chegou a uma conclusão em relação à arte e cultura: “A minha maior paixão é contar histórias, seja por quadrinhos, peças teatrais, não importa a forma”, disse extasiada.

Os quadrinhos digitais de Lalla Dalla estão disponíveis em português e inglês na plataforma de publicações online Tapas Media, que conta com mais de 40 mil criadores. “A maioria dos meus seguidores vem dos trabalhos em inglês. Infelizmente os brasileiros não apoiam tanto os artistas do próprio país”, lamentou.

A obra mais lida de Laís Dallariva no Tapas Media é o quadrinho “Lady Blue”, que conta a história do cantor romântico Dama Azul. Tanto “Lady Blue”, quanto “O Sonho de Nick” estão disponíveis para serem adquiridos em diferentes versões impressas no site Propagarte.

Em Patos de Minas, além das premiações obtidas, o trabalho de Laís ganhou destaque em 2016, na segunda edição da ExpoNerd, na Maratona NerdProject, evento anual voltado para um segmento único na cidade, que engloba o universo nerd, gamer, otaku, dentre outros.

Ilustrações e histórias em quadrinhos

Trabalhos recentes
Lalla afirma que as ideias de histórias brotam aos montes na cabeça. São tantos pensamentos, que renderiam trabalhos pelos próximos cinco anos. Atualmente ela ilustra a HQ virtual e interativa “Equilátero”, roteirizada por Bruno D’Vieira, do portal HQ’s Brasileiras.

“Toda semana lançamos uma nova página da trama e por meio de emojis, os leitores escolhem o desfecho para a próxima edição. É um processo de composição artística muito interessante, do qual eu nunca havia trabalhado antes, pois estou acostumada a trabalhar por meses em um trabalho inteiro”, explicou.

Outro trabalho que ela está elaborando é “Raimundo e a Solidão”, que se difere do caráter comercial do “Equilátero”, e se mostra bem mais introspectivo e artístico. “Nunca tive problema em criar obras comerciais. Não afeta em nada meu lado artístico, pelo contrário, eu busco um equilíbrio e é muito divertido caminhar nos dois mundos”, concluiu Lalla Dalla.

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7 Comentários

  1. Fantástico trabalho!! Que incentivemos cada vez mais a arte, a liberdade de expressão e os artistas!

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  2. Parabéns! Trabalho incrível. Merece destaque. Caio Machado sempre certeiro

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  3. Lindos trabalhos!Muito sucesso prima!👏👏👏👏👏👏

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  4. Parabéns aos dois: Lalla Dalla pela artista sensível,dedicada e brilhante que é.Caio pelo excelente texto.Dois lindos!

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  5. Muito bom. Parabéns e que este trabalho possa inspirar outros jovens a trilharem o caminho da arte e da cultura!

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