José Vilmar, o contemporâneo patense

Por Caio Machado
O artista no ateliê com um autorretrato feito com a própria barba

Foi na tarde nublada de uma quarta-feira que o artista plástico José Vilmar da Silva recebeu a redação do Jornal de Patos para aquele que seria o perfil de estreia do site, que até então, sequer havia sido lançado. Com o rosto coberto por uma máscara de pano, que não deixava de evidenciar o sorriso constante, Vilmar foi receptivo ao aceitar o convite para a reportagem.

Logo na entrada da sala de estar, já dava pra ver as obras diversas contrastadas entre a mobília e sofás antigos do artista. De um lado, autorretratos com partes do corpo feitos pelas próprias barbas e pelos, sobrepostas em códigos fontes de páginas da web, do outro, um retrato da silhueta de um casal, desenhada com café em um mosaico de coadores de papel descartáveis.

Autodidata, José Vilmar coleciona participações em salões e exposições de arte pelo mundo a fora. A obra vasta e diversa abrange trabalhos de pintura, desenho, gravura, vídeo, instalação e fotomontagens, que exploram temáticas comportamentais e observadoras a respeito do tempo, da relação do homem com o trabalho e a tecnologia.

Marginalizado na infância
José Vilmar nasceu em Patos de Minas no dia 1º de janeiro de 1959. O interesse dele pela arte aflorou logo na infância, e aos sete anos, enfrentou uma perseguição familiar quando a mãe precisou ser chamada por uma professora da Escola Estadual Abner Afonso, onde ele estudava. A docente se queixava que o menino passava o tempo inteiro desenhando na sala de aula.

Estudos do próprio corpo, feito por pelos, sobrepostos em códigos fonte

“Ela disse que desenhar era coisa de vagabundo e malandro. Após este episódio, até hoje carrego este mesmo preconceito por parte de alguns dos meus familiares”, contou. Dali em diante, José Vilmar começou a desenhar escondido. Ao terminar o ensino médio, devido a condição financeira, ficou impossibilitado de sair da cidade para estudar artes plásticas, pois já trabalhava para ajudar nas contas de casa.

Com 17 anos, iniciou a carreira de jogador de futebol profissional, atuando por seis anos no URT (União Recreativa dos Trabalhadores), outros dois anos no Mamoré Esporte Clube e, chegou ainda a participar de times em São Paulo, Catalão e Brasília. Foi nessa época que ganhou o apelido pelo qual até hoje, aos 61 anos, é conhecido: “Risadinha”.

Empregos diversos entrelaçados pelas artes
Ao abandonar a carreira do futebol, José Vilmar parou de desenhar escondido e começou a ingressar no mundo das artes plásticas de vez. Nos anos 80, enquanto praticava e dava início aos trabalhos artísticos, concluiu cursos de arte na Escola Guignard e na Fundação Clóvis Salgado em Belo Horizonte, participando também das primeiras exposições de arte.

Vilmar passou por diversos empregos por toda a carreira artística. Foi digitador no centro de processamento de dados (CPD) do Banco Mercantil, terapeuta em uma clínica psiquiátrica, e por 20 anos, desenhista criminal nas delegacias de polícia de Patos de Minas. O último emprego culminou na criação do trabalho memorial poético “Retrato Falado” no ano 2000, feito em pigmentos sobre jornal.

A obra repercutiu e no ano seguinte, a instalação da mesma foi aceita na temporada de projetos do Paço das Artes em São Paulo. O trabalho ocupava a galeria inteira devido aos 80 metros de comprimento, por três metros de altura. Centenas de rostos descritos por inúmeras testemunhas e capitadas pelas décadas de trabalho de José Vilmar preenchiam a vasta colagem feita de jornais.

Retratos feitos com café numa colagem de coadores de papel descartáveis

Ele se lembra que a repórter Patrícia Travassos do jornal Metrópoles da TV Cultura, na ocasião apresentado pelo âncora Cunha Júnior, fez uma matéria a respeito da obra. “Nunca cheguei a assistir a entrevista. No dia em que ele seria exibido, a NTV cortou o sinal do canal para exibir o programa Encontro com José Afonso. Cheguei a ligar para a emissora patense, mas eles disseram que não podiam fazer mais nada”, lamentou.

A obra de José Vilmar pelo mundo
Várias obras de Vilmar compuseram exposições coletivas em salões e festivais de todo o mundo. Em 2007, dois trabalhos passaram pela Espanha: um na segunda edição do Festival de miniMETRAJES, em Barcelona, e outro no 2º Concurso Internacional Online de Cuerpos por la cultura de la sustentabilidade em Zaragoza; e em 2008, no Festival de filmes online Cologne OFF IV, na Alemanha, bem como em Maracaibo na Venezuela.

Também no ano de 2008, José Vilmar expôs e foi premiado no conceituado evento de arte VIDEOFORMES (Festival International d'Arts Numériques de Clermont-Ferrand) na região da Auvérnia na França, porém ele nunca chegou a ver tal prêmio. O artista plástico jamais deixou o país, “sabe por quê? Morro de medo de voar de avião”, exclamou aos risos.

Série de máscaras feitas por José Vilmar para enfrentar o COVID-19

Na terra natal
Com trabalhos expostos em países da Europa e América Latina, além de diversas obras em acervos públicos de todo o país, José Vilmar não é tão reconhecido na própria cidade natal. Mesmo participando da maioria dos eventos culturais locais, e recentemente tendo sido premiado na edição de 2017 do Balaio de Arte e Cultura, o artista plástico sente que a cultura patense tem decrescido.

“A arte evoluiu, mas a cidade não acompanhou. Patos de Minas não oferece condições para nós artistas. Eu acho que a situação não irá melhorar, enquanto o pensamento dos governantes locais não mudarem”. Para ele “a arte é a mãe da educação e é preciso usá-la para sensibilizar as pessoas e criar um público que a valorize, não que a pixe e deprede, como ocorre com nossos próprios patrimônios”.

José Vilmar sugere que a Secretaria de Esporte, Cultura, Turismo e Lazer crie uma agenda e evento para que ocorra uma seleção anual de artistas locais e de todo o país. “O artista tem que falar do seu próprio quintal, mas não pode se fechar apenas nisso. É preciso um olhar para dentro de si e outro para fora, para se alcançar o equilíbrio e a coerência”, disse.

Trabalhos recentes
Atualmente, José Vilmar trabalha em alguns projetos ainda inéditos. Um deles é a obra “Servidores do relógio”, que critica o mau uso do tempo pelo homem, que esquece de usufruir da vida para correr atrás de dinheiro. O trabalho é composto por ilustrações de mãos em comprovantes de relógios eletrônicos obtidos do ponto da faculdade em que José Vilmar trabalha como porteiro.

A obra ainda inédita "Servidores do Relógio"

“Durante os mais de doze anos em que trabalho na portaria da faculdade, juntei os canhotos dos pontos que bati e agora os exponho em um acrílico que será acompanhado dos comprovantes ilustrados, que foram ampliados e depois fotografados”, disse José Vilmar descrevendo a obra, que terá as proporções de 2,5 por dois metros.

Enquanto era entrevistado, Vilmar emanava o amor que sentia pela arte, afirmando que se fosse comida, se alimentaria apenas de cultura. Descreveu a admiração por pintores consagrados como Michelangelo, Van Gogh, Cézanne, Renoir e os artistas contemporâneos Joseph Beuys, Ai Weiwei e William Kentridge. “Costumo esquecer dos artistas que admiro durante meu processo criativo, para acabar não produzindo só mais uma cópia”.

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10 Comentários

  1. Excelente reportagem! E um trabalho incrível do artista, muito bom conhecer a história de um artista da nossa cidade.

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  2. Sensacional!!! Interessante história de vida!!! Parabéns José Vilmar!!!!!

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  3. Adorei a reportagem! O texto é perfeito. E o entrevistado está de parabéns pq suas obras são lindas!

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  4. Otima notícia e parabéns ao entrevistado.

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  5. Parabéns pela entrevista! Valorização do artista patense, José Vilmar!

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  6. Um artista magnífico ! Ótimo trabalho.

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  7. Parabéns!!!José Vilmar, você é demais!!!!
    Falta reconhecimento.

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  8. Parabéns pelos trabalhos.... continua fazendo obras lindas e comoventes...

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  9. Parabéns José Vilmar. Trabalho excepcional de um artista no melhor sentido da palavra. Não que todo artista tenha que ser outsider, mas os de raiz normalmente o são.

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