Os pedais de efeitos de guitarra do Guinu

Por Caio Machado
Foto: Adriele Vieira

Pedais de efeitos fazem parte de um universo imenso, em que latinhas de diversas cores, formatos e tamanhos colorem e alteram os timbres de guitarras, contrabaixos, teclados e tudo que a imaginação dos músicos permitirem. O rock and roll não teria tido o mesmo impacto cultural na sociedade sem o advento das caixinhas de efeitos.

Quem não se lembra da guitarra esganiçada de Satisfaction dos Rolling Stones, que mais parecia um trompete estragado, ou de quando Kurt Cobain, líder da banda Nirvana, deixava a guitarra de Smells Like Teen Spirit distorcida e pesada, logo nos primeiros segundos de música?

Fabricar pedais de efeitos para guitarra é o ganha pão do patense Guilherme Ribeiro Nunes, fundador da Collateral Effects, empresa que em quase 15 anos de existência, já abasteceu os equipamentos musicais de músicos no Brasil, Estados Unidos, Canadá, Islândia, Itália, Portugal, Luxemburgo, Uruguai, Chile e Austrália.

Nascido em Patos de Minas, “Guinu”, como é conhecido pelos amigos, cresceu no Bairro Alvorada e depois se mudou para casas nas proximidades da Igreja dos Capuchinhos, nos arredores do centro de Patos de Minas e da orla da Lagoa Grande.

Guilherme é filho do casal José Geraldo e María Cecília, e irmão de Mariana. Os avós maternos dele foram professores na Escola Estadual Zama Maciel antes de se mudarem para João Pinheiro e já o avô paterno foi caminhoneiro, e a avó paterna costurava e vendia roupas.

Adolescência musical
Apaixonado por música, Guilherme começou a tocar guitarra aos 12 anos, quando fez aulas com o professor Flávio Silva no Conservatório Municipal “Galdina Corrêa da Costa Rodrigues”. Ele continuou estudando o instrumento mesmo após sair da escola de música e logo participou das bandas de rock na cidade.

Com a Night Wolf, tocou na segunda edição do Mercado Negro do Rock, evento consagrado na cena underground do rock patense, que ocorria no antigo Jet Park, na Avenida JK. Em seguida, juntou-se à banda President Evil, formado com os amigos Adriano “Brinco”, Stênia e Renata.

“Éramos praticamente a única banda em que metade dos integrantes eram mulheres. Também tocamos em algumas das festas do Mercado Negro do Rock e eu guardo uma lembrança muito boa desta época. Todo mundo emprestava equipamentos para que os eventos pudessem acontecer”, recordou Guinu.

O guitarrista lamenta ao lembrar que os eventos só pararam de acontecer devido a um incidente envolvendo a banda de hard rock Shotgun. Ao tocarem uma música do Nirvana, o grupo começou uma baderna devido a uma rivalidade entre gêneros, quebrou uma bateria e acabaram ferindo a namorada do organizador do evento.

Tirando o trágico incidente, Guilherme afirma que havia muito companheirismo e que todo mundo era amigo de todo mundo. “Em poucas ocasiões da minha vida em Patos de Minas, pude presenciar a cena underground se organizando e mobilizando para realizar os eventos. Foi uma fase muito bacana da minha vida”.

Os primeiros pedais de efeitos
Foi nessa ocasião que Guilherme começou a se interessar pelos efeitos de guitarra. Ele havia comprado dois pedais de um handmaker (termo designado aos fabricantes) e volta e meia um dos dois apresentava algum defeito. “Eu sempre enviava o pedal e o recebia após um mês com o mesmo defeito”, contou.

Na terceira vez em que o pedal apresentou defeito, Guilherme desistiu de enviar para o fabricante e, decidiu abrir a caixinha para tentar consertar por contra própria. Viu que um trilho do circuito estava levantado, comprou um ferro de solda e estanho e efetuou, com êxito, o reparo.

Em seguida, começou a pesquisar sobre o assunto na internet e descobriu que havia uma comunidade grande e ativa de fabricantes DIY (do it yourself, ou em tradução livre, faça você mesmo). Ele vendeu os dois pedais e comprou as ferramentas e componentes necessários para começar a fabricar os próprios efeitos.

Uma edição em vermelho do Collateral FX Icarus
Guilherme obteve sucesso logo no primeiro pedal que construiu e começou a vende-los para amigos próximos e ir ganhando notoriedade no meio. Em 2007, passou no vestibular da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), e mudou de Patos de Minas para cursar História.

Durante os anos em que esteve na UFU, Guinu fabricava pedais esporadicamente e os vendia pela internet. “A situação na casa dos meus pais, nunca foi de pobreza, mas nem de abundância. Eu vivia com uma grana limitada, pagava o aluguel e subsistia. Os pedais que eu vendia pagavam meu hobby e as cervejinhas”.

“Lecionei História brevemente na Escola Estadual Messias Pedreiro, em Uberlândia, mas antes mesmo de formar, eu já estava vivendo de fazer pedais de guitarra”, disse Guilherme, que nunca imaginou que as latinhas se tornariam a principal fonte de renda.

Collateral Effects
A empresa de pedais surgiu, literalmente, como um efeito colateral da paixão de Guilherme pela música. “Antes de me tornar um cara que trabalha com eletrônica, eu era um guitarrista. A possibilidade de fazer uma coisa que irá interferir no meu próprio som me encantou bastante, desde o princípio”, contou.

“Minha proposta com a Collateral é fazer os melhores pedais possíveis, com os melhores componentes disponíveis no mundo. Busco também cobrar um preço realista para o mercado. Estamos acostumados com uma forma de negócio que vende muita exclusividade, ao invés de som”, observou Guilherme.

Consolidada entre handmakers nacionais e no meio de aficionados por guitarra, os produtos da Collateral Effects já passaram pelos pés de músicos renomados como André Nieri, Daniel Imenes (que já tocou com o Pepeu Gomes e na banda do humorista Marcelo Adnet), Lenine, Bruno Giorgi e Gabriel Ventura, da banda Ventre.

Gabriel Ventura, Bruno Giorgi e Lenine
“O reconhecimento é um termômetro da qualidade do meu serviço, não trabalho para fazer pedais para guitarristas grandes, e sim para fazer pedais bons”, disse o fabricante, que afirma estar realizado devido a aceitação do público e ao crescimento pessoal ao longo dos quase 15 anos de carreira.

Um dos carros chefes das vendas da Collateral é o pedal “Icarus”, uma releitura do clássico Klon Centaur (que beira os 20 mil reais, devido ao sucesso instantâneo e ao sumiço repentino após ser lançado), que Guilherme fabrica com componentes eletrônicos de qualidade equivalente aos do original e por um preço acessível.

Outro efeito vendido é o This Machine Kill Pandas, versão moderna do pedal Proco Rat, uma distorção famosa lançada em 1978. Além dos pedais autorais, Guilherme também monta clones de marcas consagradas, sejam elas fabricadas em série, ou exclusivos, feitos por fabricantes de boutique.

Uma das admirações de Guinu é a marca Plan-9, do handmaker brasileiro Orlando, que ele julga seminal para a consolidação da Collateral. Ele também gosta das marcas Catalinbread, D*A*M (Differential Audio Manifestationz) e do trabalho de Pete Cornish, conhecido por personalizar pedais para o Paul McCartney, David Gilmour, etc.

Antes da pandemia, Guinu também tocava em bares e pubs uberlandenses com as bandas Autopilots, que interpreta canções de grunge e rock alternativo; Aos Barões, um tributo ao Barão Vermelho; e com a banda autoral Amarelo Patrola, que trabalha elaborando canções próprias.

Ele ainda reside em Uberlândia, mas volta e meia aparece em Patos de Minas para visitar os pais e amigos. No meio do caminho, impulsiona o nome da cidade mundo a fora com os pedais de efeito que fabrica na Collateral FX!

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