Aleijadinho, de novo...

Por José Eduardo de Oliveira
Escultura em cedro, Passos da Paixão de Cristo em Congonhas-MG,
Capela Passo da Cruz-às-Costas (1796-1799) - Foto: José Eduardo de Oliveira/2013

"As cúpulas brancas dos Passos
E os cocares revirados das palmeiras
São degraus da arte de meu país
Onde ninguém mais subiu
Bíblia de pedra sabão
Banhada no ouro das minas"
Oswald de Andrade, PAU BRASIL, 1925

O pintor marianense Elias Layon lançou um portal especializado na obra do escultor ouropretano Aleijadinho. O professor José Eduardo de Oliveira enviou um e-mail parabenizando a iniciativa e tecendo comentários sobre a conturbada biografia de Antônio Francisco Lisboa. A troca de mensagens está publicada na íntegra a seguir, na coluna “Comentário Extemporâneo” do Jornal de Patos:
Caro Elias,

Primeiramente parabéns pelo Site, qualquer coisa de sensacional e agora referência obrigatória sobre o assunto. E eu também concordo com isso: “EM FAVOR DA OBRA GENIAL DO ALEIJADINHO PELA PROTEÇÃO DA HERANÇA ARTÍSTICA DO ALEIJADINHO”.

Sou admirador de suas pinturas, e depois de suas esculturas, desde 1982 quando fui estudar História aí em Mariana. E agora também como “crítico de arte”. E também de Antônio Francisco Lisboa, O Aleijadinho, pardo, natural de Villa Rica.

E fazer qualquer coisa relacionado com as obras e a vida do grande Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, sempre é algo que requer conhecimentos, mas também audácia e não só acertos, mas também possíveis equívocos. Afinal são mais de duzentos anos de sua morte e todo mundo escreveu sobre ele, até eu, baseando-se em muitas obras e pouquíssima documentação. E muita especulação...

As polêmicas começaram como todos sabem, quando seu primeiro biógrafo, Rodrigo Bretas (1858) quis lançar as primeiras luzes sobre o escultor, mas usou um holofote, acabando por clarear e também ofuscar. Depois de um breve interregno, acredito eu, tiveram inícios as polêmicas, Com Mário de Andrade, o grande Mário, no início do século XX, foi digamos assim o precursor de uma nova “redescoberta” do Barroco Mineiro e do Aleijadinho.

A começar pelo seu retrato. Como era o Aleijadinho. Todos quiseram dar uma face a ele. De Euclásio Pena Ventura (o retrato oficial), passando por Henrique Bernardelli, Belmonte, Maurício de Sousa (o da Mônica), até ao mais recente, o seu. Conheço apenas dois filmes, sobre ele, “Cristo de Lama” (1966), onde ele é quase branco e “Aleijadinho – Paixão, Glória e Suplício” (2000), onde ele foi aleijado de novo. Sem contar que no “Tiradentes” (1999), o Aleijadinho seria um mero débil mental coadjuvante.

Entretanto, pouco depois de Mário de Andrade, tentaram não só desqualificar nosso Aleijadinho, mas riscá-lo da face da História.

Até hoje, não sei se escreviam por ódio ou por amor, como por exemplo, como entender um Feu de Carvalho (1934), um Augusto de Lima Júnior (1942), um José Mariano Filho (1942)? Que afagavam com uma mão e esbofeteavam com a outra. E fora, tentativas, citando, como diria Sérgio Buarque de Holanda, que aliás não deu muita bola para o nosso toreuta, as “de mitologias”, para lançar mais brumas ainda no pobre escultor mulato. Foi assim com Isolde Brans Helena Venturelli (1982), como naquele livro de etês: eram os profetas os conjurados? E mais recentemente, em que pese ser um estudo muito mais criterioso e sério, uma reavaliação feita por Guiomar de Grammont (2008), o Aleijadinho foi uma invenção? E os estrangeiros, não todos, chutaram muita terra para venderem seus peixes derrancados, como foi o caso de Patric Strautmann, “L'Aleijadinho; lé lépreux constructeur de cathédrales” (2005). Misericórdia, um leproso construtor de catedrais. Muito além de Santos Dumont, que deve ter morado aí em Vila Rica.

E sobre suas doenças, ou sua doença? Parece até a polêmica atual – da Covid-19 - que doença era aquela? Usaram o próprio Bretas para diagnósticos contra ele, desde Djalma Andrade (1923), que nem médico era, e inúmeros outros e inumeráveis doenças, muito além das que Bretas citou, até Geraldo Barroso de Carvalho (1998).

E a livraiada sobre ele?

Em 1939, Judite Martins publicou na Revista do SPHAN, os “Apontamentos para a bibliografia de Antônio Francisco Lisboa”, onde arrola 100 referências bibliográficas (livros e artigos) sobre o Aleijadinho. Sendo três delas específicas sobre suas doenças. Em 1970, Hélio Gravatá publicou na revista BARROCO, a “Bibliografia sobre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho”, onde arrola 1.140 referências bibliográficas (livros, artigos, etc.) sobre o Aleijadinho. Em 1971, sobe para 1.177. Sendo 34 delas específicas sobre suas doenças. E hoje, 50 anos depois?

E sobre sua produção artística? Onde ele arrumou tanto cedro rosa?

Eu moro aqui em Patos de Minas e há uns 40 anos passados, tinha uma tia minha que morava em uma fazenda, onde segundo ela tinha uma imagem de Aleijadinho. Bem aqui no oeste das Gerais. Um belo dia fui lá e sem querer, pois não sou nenhum perito avaliador de obras do Antônio Francisco, acabei, depois de ver a imagem, concluindo, de acordo com as características de suas obras –os estilemas-, porque me perguntaram, que a imagem nada tinha de Aleijadinho. Era uma pequena escultura em madeira sem policromia, sem definição de nada, tosca até, e se fosse avaliar de que época, provavelmente muito mais velha que toda a obra do Aleijadinho. O que quero dizer é que tem Aleijadinho por tudo quanto é canto.

O honorável, Feu de Carvalho (1934) que o diga: “Porém acreditamos não lhe ter sido possível a execução de tudo que lhe é atribuído, nem com mais três vidas que neste mundo usufruísse!”. E Geraldo Dutra de Moraes (1977), emenda: “Contudo, numerosas dessas peças atribuídas ao cinzel do Aleijadinho, constantes dos catálogos, carecem de comprovação idônea, sendo consideradas apócrifas pelos especialistas em arte sacra brasileira.“ E Waldemar de Almeida Barbosa (1985), conclui: “O pior é que a lista de trabalhos atribuídos ao Aleijadinho continua crescendo. (…) Não nos esqueçamos também de que houve outros artistas, muitos outros artistas, em Minas, no século XVIII.”

Márcio Jardim (1995), enumera 304 obras do Aleijadinho distribuídas em: esculturas, projetos, móveis, oratórios, entalhes, louvação e indefinidas. Localizadas em cidades históricas de Minas e em coleções particulares de BH, SP. e RJ. Já, Myriam A. R. Oliveira (2002), enumera 128 esculturas devocionais em madeira. Localizadas em cidades históricas de Minas e em coleções particulares. E o mesmo Márcio Jardim juntamente com Marcelo Coimbra e Herbert S. Pinto, (2011), enumeram 486 obras do Aleijadinho, distribuídas em: escultura (374), entalhamento (37), escultura ornamental (25), arquitetura (25), marcenaria (24) e sem especificação (1) localizadas em cidades históricas de Minas e em Museus de S.P., e em coleções particulares.

E você mesmo, em 2014, identificou duas imagens de seu ateliê, como sendo obras do Aleijadinho no livro: “O Aleijadinho Catálogo geral da obra” (2011), de Márcio Jardim, Marcelo Coimbra e Herbert S. Pinto.

Mas as polêmicas não irão parar. De Richard Burton, Bretas, passando por Mário de Andrade, José Efigênio Pinto Coelho, Marcos Paulo de Souza Miranda e Elias Layon.

Além da qualidade técnica e o apuro visual, seu site me chamou a atenção por uma ou duas coisas.

E aqui copio litteratim:

“A seguir transcrevo as certidões e observações pessoais a respeito do assunto.

REGISTRO DE BATISMO – DESAPARECIDO DESDE 1966

“Aos vinte e nove dias do mês de Agosto de mil setecentos e trinta nesta Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição com licença Minha Baptizou o Rdo. Pde. João de Brito a Antonio f.o de Izabel escrava de Manoel Francisco da Costa do Bom Sucesso e lhe pôs logo os St. Os óleos e deu o d. Seo Senhor por forro, foi padrinho Antonio dos Reys, de que fis este assento Dª Sª – O vigário Felix Simões de Payva.”


OBSERVAÇÕES

Creio que, aqui, o Manoel Francisco da Costa do Bom Sucesso seria o mesmo que Manoel Francisco Lisboa da Encosta do Bom Sucesso. Encosta do Bom Sucesso era o local onde morava o pai do Aleijadinho. O escrivão preferiu suprimir o agnome Lisboa e se referiu ‘a encosta onde morava o pai do Aleijadinho, talvez para evitar erro devido a tantos homônimos que havia na antiga Vila Rica. Dessa forma, pensou definir melhor a paternidade correta do Aleijadinho.”

REGISTRO DE ÓBITO

Aos dezoito de novembro de mil oitocentos e quatorze (1814), faleceo Antonio Francisco Lisboa, pardo solteiro, de setenta e seis anos, com todos os Sacramentos encomendado e sepultado em cova da Boamorte epara clareza fiz passar este assento e que me assigno.

O Coadjutor José Carneiro de Moraes.

OBSERVAÇÕES

Na distância desses acontecimentos, e como acontecia em outras situações semelhantes, pode-se deduzir que o escrivão ao redigir o atestado de óbito não teve o cuidado de conferir a Certidão de Batismo que é de 1730. Certamente, no momento do sepultamento, perguntou a alguém a idade do Aleijadinho que lhe forneceu essa idade de 76 anos. De acordo com a Certidão de Batismo o Aleijadinho tinha 84 anos e não 76 anos.

O ALEIJADINHO REVELADO

O eminente Promotor de Justiça e respeitável pesquisador, Dr. Marco Paulo de Souza Miranda em busca para o seu livro “O Aleijadinho Revelado” encontrou nos assentos religiosos da Matriz de Antônio Dias uma outra certidão de batismo que entendeu ser a do Aleijadinho.

NOVA CERTIDÃO BATISMO, IPSIS LITTERIS

Aos vinte e seis dias do mês de junho de mil esetecentos etrinta esete (1737) nesta matriz de Nossa Senhora da Conceição de Vila Rica bautizei e pus os santos óleos a Antonio filho de Izabel preta forra foram padrinhos Mel Luiz e Antonia Correa preta forra de que fis esse assento dia Ut sª

O Pe. Coadjutor Nicolau Barreto Gusmão.

O Coadjutor José Carneiro de Moraes.”

Em suas observações pessoais, então, o vigário Felix Simões de Payva, que registrou o batismo do Aleijadinho, quis como o Joaquim José da Silva, o Tiradentes, “...armar uma meada tal, que em dez, vinte, ou cem anos se não havia de desembaraçar …” (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, v.5, p. 407)? E errou o sobrenome de seu suposto pai por duas vezes “Esqueceu-se do Lisboa” e trocou “Costa do Bom Sucesso”, para “da Encosta do Bom Sucesso.”


Francysco daCosta?  Ou Francysco daEncosta?


Talvez todos os registros de batismos de lá estejam errados. E o português Manuel Francisco Lisboa, nem se importou, afinal o filho era bastardo mesmo, não é?

E, também pelas suas observações pessoais, 84 anos depois, o Coadjutor José Carneiro de Moraes, da mesma Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, sequer sabia a idade daquele pobre diabo que estava sendo enterrado ou inumado, como diziam naquela época.

E, “O eminente Promotor de Justiça e respeitável pesquisador, Dr. Marco Paulo de Souza Miranda em busca para o seu livro “O Aleijadinho Revelado” ” – aliás um pequeno grande livro -, aproveitando-se dessa secular polemica, baseou-se em que? Provavelmente na proximidade da data de batismo, 1737, com os 76 anos da data do óbito do Aleijadinho em 1814...e também no nome da mãe do pequeno Antônio, que era o mesmo no primeiro batistério e na tradição: Izabel. Então?

Assim:

“Todos os negócios do Aleijadinho são aleijados, desde o assento de baptismo até o de óbito, inclusive!” Feu de Carvalho, 1934

“...num país perdido, do outro lado do Atlântico, um mestiço, paralítico das mãos ainda por cima, produz esta obra sublime, a última aparição de deus evocada pela mão do homem!” Germain Bazin, 1963

“A vida do Aleijadinho é obscurecida por um labirinto de lendas, através das quais é difícil traçar um curso exato, apesar dos numerosos livros escritos sobre o assunto.” Hans Mann, 1967

“Aparentemente, a pessoa de Antônio Francisco Lisboa, associada ao chamado Aleijadinho, se não existiu, foi inventada já no século XIX.” Guiomar de Grammont, 2008

Sis Felix! Patos, 23.07.2020

Resposta de Elias Layon – por e-mail, pouco antes da resenha ser publicada:

“Boa tarde estimado Prof. José Eduardo. Recebo com agradecimentos e imensa satisfação o seu email onde revela sua vasta cultura, admiração e conhecimento a respeito do Aleijadinho e autores que escreveram sobre o artista.

Sempre tive, comigo, esse desejo de discriminar as verdadeiras obras de autoria do Aleijadinho diante do volume de obras erroneamente atribuídas a ele. Algumas maliciosamente falsificadas. Como estudioso e o primeiro escultor brasileiro a se interessar e avançar nesse sentido creio, com toda modéstia, ter chegado o mais próximo das verdadeiras obras do mestre. Tenho recebido muitas peças para análise e alguns leiloeiros do Brasil, só poriam a peça em leilão se ela constasse no site que criamos. Isso é muito gratificante e me anima a seguir em frente. Pretendo, mais adiante, criar uma leitura computadorizada da obra do Aleijadinho usando toda tecnologia atual que dispomos para isso. Seria uma espécie de DNA da obra do artista fundamentada nos sulcos das ferramentas usadas por ele. O custo desse projeto, uns 300 mil, será minha nova etapa, se Deus me der vida e saúde. Vou fazer por conta própria. Já tenho o escritório especializado para criar o programa-leitor. Vamos em frente. O que nos move é o respeito e admiração pelo genial Aleijadinho. Espero, um dia, podermos sentar e falar muito a respeito de tudo.

Grande e fraterno abraço. Elias Layon”

Respondi:

“Obrigado, para mim seria um prazer e uma honra.

Um abraço de um marianense e ouropretano de coração. Em tempo, sua responsabilidade é muito grande e sua tarefa é ingente, se algum dia puder ser útil, estou aqui modestamente ao seu dispor. um abraço.

Eduardo.”

CONFIRA: ALEIJADINHO por Elias LAYON https://aleijadinho.com/

José Eduardo de Oliveira é licenciado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto. É autor de três livros, sendo o último "Bento Rodrigues: Trajetória e Tragédia de Um Distrito do Ouro", lançado em 2018.

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