No coração da pandemia

Por José Eduardo de Oliveira

A pandemia do amor é a pior de todas e o pior, não mata, mas aleija Às vezes em plena madrugada no meio da noite mais fria Ou quente, sinto minhas entranhas em convulsão Minhas estranhas entranhas entranhando em mim mesmo Meu cérebro mistura-se à minha razão e ao que há de mais confuso Do meu passado misturado ao meu presente Meus desejos, meus sonhos, meus ideais são os mesmos meus medos Meus medos, uma ânsia sufocante que às vezes misturam-se a uma euforia Incontrolável e confortável Imagens de abismos, ruas, quartos, névoas, montanhas, rios, rios, lodo, lama Animais, pessoas, tocam-me e abandonam-me, mulheres sem rostos, corpos O político que rouba porque não faz dinheiro Lúbricos, íncubos doces, macios, afastam-se nas noites por ruelas coloniais Mulheres multirraciais e pesadas riem de mim porque sou multirracial e leve como a consciência de um anjo sem asas Ou inefável como Lúcifer Asfaltos em redemoinhos sujos de civilização, tenho vergonha do que tenho sido, luto Semáforos sem carros, ruas desertas, ratos Sua mão estava quente mas seu coração, seu coração não tinha mais aquela temperatura anti-corrubianas E os livros que não consigo ler no escuro e de olhos fechados...os livros que não consigo escrever...uma ânsia... Os livros que preciso ler...as palavras que escrevo e não consigo ler O poema que era seu preferido que não sei mais declamar porque sua existência não existe mais é uma essência sem aparência e sem prazer Você é uma pandemia do passado que ameaça na mesma proporção de sua doçura Um urutau corta a noite fingindo ser morcego e me ameaça Bilhetes apócrifos, subversivos, proibidos, mórbidos, indecentes Pornográficos, seios que toco sem cheirar, bocas molhadas sem gosto Bocas quentes que sorriem simplesmente sorriem Músicas indecifráveis, gatos que me levam a luzes que tenho medo Os sem bares que vagam como zumbis na lua cheia Onde ir tenho medo mas vou – floresta de árvores frutíferas sem frutos A morte é a coisa mais natural e inútil de nossa existência ela é patética Pedintes pela cidade cega, surda e muda Caixas eletrônicos onde vendem cervejas escuras As orações que não sei mais rezar e são inúteis No meio da noite milhões de galos, cantam, perto longe, a noite é interminável...as sirenes, marginais? Moribundos? Quem??? Nas madrugadas escuto aves silvestres dando seus últimos cantos à sua própria morte Quando o dia chega frio ameaçador como se o dinheiro estivesse do outro lado da minha consciência Rua barulhenta, onde cartas de baralho sem naipes definem um jogo perigoso e atraente, um jogo sedutor e assustador como um bar que são todos os bares Úteros inférteis serão férteis no gozo Os velórios inúteis como os que continuam vivos Onde estive em todas as cidades onde vomitei e acordei só e chorei Que adianta uma vacina se não podem me vacinar contra eu ou contra ti mesma? Minha mãe, oh! Minha mãe, este é o seu filho Onde senti as feridas da noite passada que parecia um sonho mas foi real lindamente Real Ficar livre de mim foi a minha algema de pó Como uma prova final de matemática do segundo grau onde tirei zero mas fui aprovado porque o professor era alcoólatra e louco mas sabia que eu não sabia nada e isso não tinha a mínima importância como os discos voadores que ele via Naquela época a rua da Bahia não era a rua Direita mas era a mesma merda e levava A todos os lugares e a lugares nenhuns Seu nome será meu último balido desse animal abandonado num pasto de desejos sem o próprio objeto do desejo Meu pai me falava da inutilidade de dormir e eu aprendi foi da inutilidade de ficar acordado Quando jurei eterno ódio que fui fiel? De te me lembro de duas coisas, não depilava e me deletou, o resto é abismo e gratidão A todas as mulheres e a todas solidões da cidade, das cidades, do mundo Não sou drogado, não estou drogado O horror! O horror! Antes fosse assim não seria louco apenas chapado O álcool que consumo é o do final de semana ou do início? O bom de um beco sem saídas é que existe uma entrada Do meu quarto ao quarto das pensões, dos hotéis das pousadas como se fossem becos, gretas de muros mictórios fétidos aconchegantes ou a uma confortável e inútil biblioteca pública onde os livros, os livros, as palavras, as palavras Angústia, fidelidade, amor, dor, guerra, carinho, solidariedade, ódio, paz, comida, sexo, orgasmo, vagina, ânus, púbis, bunda, boca, olho, desejo, noite, sono, violência As palavras no meio da noite, as questões inquestionáveis e irresolvíveis, a fome da expressão pelas palavras ou atos que as palavras covardes não descrevem, a tarde na cidade dos homens e mulheres perdidos em si mesmos, seu egoísmo, egocentrismo, egotismo... eu mais o eu é igual a nada A minha infelicidade é ancestral? No Bar das Coxinhas em Ouro Preto foi o último porre que levaram a milhares de outros últimos todos inúteis O esmegma não pode ser estocado Infidelidade histórica atávica Genética ou sem vergonha? A busca inútil... A ingratidão dos cães Das filhas Dos gatos Dos filhos Como se a sua mão em mim fosse o pior dos males porque não existe mais Dos homens e das mulheres A noite precisa todas as noites serem maior que todos os dias? A volta da noite A noite A noite...a noite mais fria interminável e muito fugaz, vazio, vazio. E, no entanto, mesmo sem querer ou desejar, sempre haverá uma aurora ainda que em brasa...e esse pandemia será tão inútil quantas foram todas elas desde a Peste de Atenas As estátuas de sal de Sodoma e Gomorra foi um castigo ou um prêmio? Um espectro ronda eu mesmo o meu próprio espectro que você criou de mim mesmo...


José Eduardo de Oliveira é licenciado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto. É autor de três livros, sendo o último "Bento Rodrigues: Trajetória e Tragédia de Um Distrito do Ouro", lançado em 2018.

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4 Comentários

  1. Nada é mais tormentoso do que a certeza da morte, e, como diz o autor,inútil e patética. Faltou acrescentar dolorosa e permanente.

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  2. Este texto me remete ao Dirceu café bar no Largo Marília de Dirceu em Ouro Preto.Parabéns, tāo real e tão insano.

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  3. Ao começar a leitura do texto de José Eduardo de Oliveira, tive uma sensação de estranheza quanto à pontuação, à sintaxe à concatenação de ideias. À medida que fui avançando, identifiquei sua escrita com os textos produzidos na época das vanguardas europeias, no início do século XX, movimentos contemporâneos do canônico escritor inglês Joseph Conrad. Sendo seu leitor, José Eduardo ilustrou seu texto com capas de alguns livros de Conrad e se inspirou em sua mais conhecida obra para intitular seu texto: “No coração da pandemia”. Por coincidência, li recentemente o livro O coração nas trevas (1902) e pude detectar certas analogias temáticas entre o livro e o texto em questão, como por exemplo o conflito do homem consigo mesmo, a busca da identidade e reflexões sobre a condição humana.
    “... a tarde na cidade dos homens e mulheres perdidos em si mesmos, seu egoísmo, egocentrismo, egotismo... eu mais o eu é igual a nada”
    Quanto ao estilo um tanto caótico, fora dos cânones pré-estabelecidos, o texto de José Eduardo remeteu-me à da tríade vanguardista (dadaísmo, expressionismo e surrealismo). Lembrou-me inicialmente do niilismo dadaísta:
    “... a rua da Bahia não era a rua Direita mas era a mesma merda e levava A todos os lugares e a lugares nenhuns” [...] Meu pai me falava da inutilidade de dormir e eu aprendi foi da inutilidade de ficar acordado´[...] “Os velórios inúteis como os que continuam vivos”
    Lembrou-me também da percepção expressionista da realidade de maneira não tradicional e, sobretudo, da escrita automática dos surrealistas. Levados pelo impulso, registravam o que lhes vinha à mente, destituído de lógica e de racionalidade. O automatismo psíquico, característica mais marcante do surrealismo literário, nada mais era que a transmissão do pensamento isento de qualquer controle exercido pela razão, pela estética e pela moral.
    “Minhas estranhas entranhas entranhando em mim mesmo Meu cérebro mistura-se à minha razão e ao que há de mais confuso Do meu passado misturado ao meu presente Meus desejos, meus sonhos, meus ideais são os mesmos meus medos Meus medos, uma ânsia sufocante que às vezes misturam-se a uma euforia Incontrolável e confortável Imagens de abismos, ruas, quartos, névoas, montanhas, rios, rios, lodo, lama Animais, pessoas, tocam-me e abandonam-me, mulheres sem rostos”
    Um dos objetivos dessas vanguardas era o de incomodar o leitor, de tirá-lo da “zona de conforto”. José Eduardo conseguiu isso com perfeição. Conseguiu também a proeza de fazer a ligação entre o momento pandêmico atual (de trevas), com a obra de Conrad e com a expressão literária de outro período de trevas (1ª Guerra Mundial), vivenciado pelo autor inglês.
    Jô Drumond
    Vitória - ES

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  4. Jô, li Joseph Conrad (1857-1924), e o seu “O coração das trevas” quando ainda estava estudando na UFOP, e o livro foi traduzido, acho que pela primeira vez no Brasil, pela Brasiliense em 1984. Li, depois de desistir várias vezes, e ainda pretendo ler novamente, como uma expiação “pelos pecados dos homens”. Conrad nasceu na Polônia, mas consagrou-se como escritor de língua inglesa. Sua biografia – das mais ricas e complexas -, mostra um apátrida que abraçou todas as inúmeras pátrias que visitou como marinheiro. Pátrias humanas que pareciam desumanas. Pátrias anímicas, telúricas e espectrais. Reais mas tornadas surreais por aqueles homens e mulheres de carnes, ossos, crueldade, medo, sofrimento e horror! E o pior, meticulosamente desenhados para escravizar seres humanos com a finalidade do lucro, mesmo que: “A conquista da terra que antes de mais nada significa tomá-la dos que têm a pele de outra cor ou o nariz um pouco mais chato que o nosso, nunca é uma coisa bonita quando a examinamos bem de perto.” Se mudasse o espaço daquela novela, que eu prefiro considerar como um tétrico romance, a ação poderia ter se passado em qualquer lugar fora da Europa, mas também e principalmente no Brasil. Que ainda hoje e parece, se encaminha como nunca, para o coração das trevas. “O horror! Horror!”

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