Outdoors que não dizem nada a ninguém

Por Caio Machado
Outdoor publicado na Rua Tiradentes.
Em 18 de fevereiro de 2017 nos deparamos com o primeiro de inúmeros outdoors que surgiriam em Patos de Minas vangloriando a figura do Presidente Jair Bolsonaro. Na ocasião ele era um pífio deputado federal, que ganhou visibilidade nacional, após ser chacoteado em programas humorísticos devido ao comportamento opressor.

Naquela época, a conduta atípica do parlamentar não parecia se assimilar com o que boa parte dos brasileiros pensava, mas hoje sabemos que as coisas mudaram, ou pelo menos deixaram de ser fingidas. Lembro que escrevi uma crônica a respeito do outdoor e pela primeira vez, senti medo de sofrer represálias ou agressões físicas.

O trecho “Será que o patense machista, homofóbico, misógino e hipócrita finalmente encontrou uma liderança política à sua imagem e semelhança?” agitou os ânimos de um pessoal que, em 2017, ainda fazia uma cerimônia para disfarçar tais adjetivos. Hoje, estas bandeiras e outras piores, são levantadas com esmero pelos seguidores do “mito”.

O Bolsonaro de antes de 2017 me deixa até saudosista quando o de hoje abre a boca. Não vou me alongar porque todo mundo (literalmente o planeta Terra inteiro) já está cansado de saber quem é o político desconcertado, biruta e escatológico, que 57,8 milhões de brasileiros decidiram eleger. Me orgulho por não fazer parte desta soma.

Mesmo diante de tantos absurdos, a paixão exacerbada pelo presidente não iria acabar de uma só vez. Uma nação que elege o Collor, tem a poupança confiscada, o derruba e o elege novamente como senador, demonstra que não consegue parar de idolatrar políticos da pior estirpe com facilidade. Ninguém aprende com os erros no Brasil.

Tanto é que em 2020, após os sucessíveis fracassos de Bolsonaro à frente da liderança da nação e o fiasco em relação à luta contra o Coronavírus (115 mil mortes, mais de três meses sem ministro da saúde e a obsessão à la Smeagol pela cloroquina), os outdoors que o enaltecem continuam sendo divulgados à todo vapor no Brasil afora.

Considerada uma das maneiras mais antigas de publicidade, os outdoors emergem com pedras talhadas na Mesopotâmia, rolos em madeira na Grécia antiga e tiras de metal grafadas com carvão na Roma Antiga, somados ao mero desejo de divulgar a venda de produtos e serviços.

Do século XV em diante, com o avanço tecnológico possibilitado pela litografia, cartazes publicitários gigantescos se tornaram uma realidade acessível. Mas a verdadeira consolidação do formato publicitário se deu no século XIX, quando os “billboards”, se tornaram parte da composição urbana e cotidiana.

Mudando de assunto, mas atentando para uma coincidência, data de 2017, o brilhante e premiado filme “Três anúncios para um crime”, dirigido por Martin McDonagh. Na narrativa, uma mãe que teve a filha assassinada, contrata três outdoors para protestar sobre a incapacidade policial em solucionar o caso. Será que o filme premeditou uma tendência?

Outdoors existem para anunciar coisas e propagar ideias, quer você concorde ou não. Eu poderia esmiuçar estudos de comunicadores e teóricos sobre a eficácia (ou ineficácia) desta modalidade publicitária, mas incitar aspectos acadêmicos numa crônica trivial não diria nada a ninguém. E é exatamente sobre isto que quero falar.

A quem interessa um outdoor exaltando à figura do presidente em Patos de Minas? O último cartaz publicado pela ala bolsonarista do movimento “Nas Ruas” responde a esta indagação sem precisar recorrer à escola frankfurtiana: 72% do eleitorado patense que o elegeu.

Claro que de 2018 pra cá, muitas pessoas podem ter se arrependido da escolha ou até mesmo aderido ao bolsonarismo, mas não dá pra esperar que uma cidade com clima conservador e baixa representatividade de progressistas na Câmara Municipal, tenha sofrido alguma mudança em relação ao favoritismo de Jair Bolsonaro.

Então por que chover no molhado e continuar dando publicidade gratuita para um político que ainda está em alta? Esta é a pergunta de um milhão de dólares, mas a Coca-Cola continua sendo a maior marca de refrigerantes do mundo por nunca titubear com a frequência e qualidade das próprias campanhas publicitárias.

Vivemos numa sociedade em que uma grande parcela não ganha nada ao divulgar no Instagram ou qualquer outra rede social, um produto que comprou e gostou e uma pequena fatia lucra por saber vender a própria imagem. As blogueirinhas de internet podem ser fúteis o quanto for, mas não saem por aí divulgando marcas de graça.

Os brasileiros não sabem o próprio valor, e não estou falando de dinheiro. Eles são apaixonados por políticos, que cresceram ganhando camisetas em comícios, abraços e tapinhas nas costas durante campanhas eleitorais gostam de se sentirem importantes e ficariam felicíssimos se o Bolsonaro ou algum de seus filhos soubessem que eles os divulgaram em outdoors.

Essa necessidade de pertencimento à uma tribo compartilha o mesmo prazer em torcer por um time de futebol ou frequentar alguma igreja. E é aí que entra a rivalidade dos ativistas LGBT publicando outdoors com a figura da cantora Pabllo Vittar, ícone de uma minoria odiada pelo presidente, cujo ódio escancarado ajudou a elegê-lo.

Outdoor publicado na Rua Major Gote, ironicamente, na mesma
localidade em que o primeiro outdoor pró-Bolsonaro apareceu.
Nessa altura do campeonato, só a pessoa mais desinformada do Brasil não presenciou o Bolsonaro dizendo algo que soasse minimamente homofóbico. O resto passa pano e se identifica mesmo, sejamos sinceros... Mas eis que surge outro questionamento: a quem interessa um outdoor afirmando que Patos de Minas diz não ao preconceito?

Na teoria, a todos os patenses com bom senso. Na prática, o buraco é mais embaixo, pois as reações à fixação de um outdoor com a imagem de uma drag queen foram as piores possíveis. Como de praxe, preconceituosos zombaram e fundamentalistas religiosos fizeram comentários repetitivos sobre gênero e blá blá blá.

Mesmo que nenhum pedaço do cartaz tenha sido associado à figura do presidente Bolsonaro, o outdoor da Pabllo (que segue uma tendência lançada em São Gotardo), foi associado pela maioria como um ato anti-bolsonarista, reforçando a ideia de que ele seja realmente homofóbico. Quem poderia imaginar?

Eu advogo pela ineficácia de tais outdoors em ambos os cenários. Em 2018, um outdoor de Bolsonaro na Rua Major Gote foi vandalizado e o primeiro com a imagem de Vittar, pendurado em São Gotardo, foi derrubado no mesmo dia em que foi publicado. Isso só provoca ódio em quem não simpatiza com o que é divulgado.

Hoje mesmo sai para fotografar os outdoors que ilustram esta crônica e recebi olhares de reprovação de um idoso enquanto eu clicava um cartaz na esquina entre as ruas Tiradentes e Maestro Augusto Borges. O ponto ostentava um outdoor pró-Bolsonaro até ontem e hoje já amanheceu com uma mensagem de desaprovação. Provavelmente ele pensou que eu havia mandado trocar ou algo do tipo...

Finalizei minha crônica de 2017 sugerindo que o dinheiro investido no outdoor do Bolsonaro fosse revertido em cestas básicas para famílias carentes. Não ouvi nada a respeito, mas sei que os ativistas LGBT, que divulgaram o outdoor da Pabllo Vittar, pegaram as sobras do financiamento coletivo e praticaram este ato beneficente. Percebem a diferença?

O repórter Flavio Sousa observou ontem no Programa Entrelinhas sobre como os bolsonaristas patenses reclamam da crise financeira provocada pelo covid-19, mas sempre dispõem de grana para espalhar novos outdoors contra o fechamento do comércio e louvar a imagem de Bolsonaro. Ele ainda sugeriu que rolasse uma prestação de contas sobre a origem do dinheiro para tais anúncios.

No fim das contas, estes outdoors não dizem nada a ninguém. Só reforçam o fato de como as pessoas concentram a atenção em coisas desnecessárias e o quanto gostam de forçar as outras a pensarem como elas mesmas. Não interessa se você é de esquerda ou de direita, isso não significa nada para os políticos que se alimentam desta briga banal entre espectros. É uma guerra perdida para ambos os lados.

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2 Comentários

  1. Lembrei da galera lá da lava jato, que os caras pagaram para colocar um outdoor em apoio a própria operação, essa gente está na disputa de narrativa querendo ganhar no grito e se afirmar a todo momento, não interessa o contraponto, tentar discutir com essa gente é como falar no vazio, não tem construção e só importa o que a pessoa acha ou acredita, infelismente ja sou velho de mais pra ter esperança, não vai melhorar, no máximo acumularemos o record de nótas de repúdio de um presidente em que o projeto é esvaziamento e destruição das instituições, ja precificaram e o brasil ta vendido e infelizmente os compradores são disso pra baixo

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  2. Só li verdades, eu ia até fazer um texto falando sobre tal assunto. Algumas coisas são desnecessárias, é o exemplo desses outdoors. E acabou que virou uma disputa entre os que são contra o presidente e os que são a favor. A primeira vez que vi um desses, fiz foi rir a acenar a cabeça com sinal de reprovação a tal atitude. Em um momento onde as coisas estão tão difíceis, esses espaços poderiam divulgar mensagens de apoio, divulgar pequenos comerciantes, ou falar sobre se proteger do vírus... Sei lá, tem tantas opções e o pessoal perde tempo idolatrando político.

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