Caderno de Percepções #01

Por Mikael de Melo

Imagem: Susano Correia

“Tudo quanto vive provém daquilo morreu.”

Começo este Caderno de Percepções no Jornal de Patos compartilhando escritos que vão além da poesia, numa linguagem mais direta, porém com o mesmo desejo: partilhar vivências e conceitos. O ato de perceber, observar, absorver, meditar, refletir e apreender deveria ser caro a todo ser humano. Confessar nossas percepções por meio da escrita é feito que cura males interiores - ainda que seja um processo sem fim. O universo interior é lugar de devastação. É tragédia. E talvez por isso, na tentativa de compreender e ressignificar, mantenho desde meus nove anos de idade um diário todos anos, bem como me dediquei e me dedico ao Jornalismo e ao Teatro - ambos ofícios de interpretação a seus modos.

No nascimento deste Caderno, a potente citação platônica no início do texto destaca um tópico que tanto nos rodeia, invade, atormenta - mas que é, no entanto, uma das poucas certezas empíricas do homem. Pensamos (mais e melhor) quando confrontados com um problema, dizia Dewey. Confrontemos a questão da morte, portanto.

Volta e meio me vejo espantado por este assunto. Mas se filosofia surge do espanto, devo estar no caminho certo...

Creio profundamente que a consciência da finitude e a compreensão daquilo que nos é mortalmente importante, nos ajuda a perceber que o conceito da morte em si nos ensina muito do que é viver. Nossa dor provém do hiato que a ausência física nos impõe porque SER humano é estar com humanos. Compartilhar, comunicar, trocar, participar e transmitir são ações essencialmente humanas. É por isto que a ausência dessas ações concretas nos representa tanta dor.

É claramente possível que não nos seja evidente como saber lidar com a ausência física em termos práticos. É na vivência diária que o sofrimento atinge seu máximo grau. E é na presença que se traduz os sentimos e as emoções. Contudo, deve haver solução para esse enigma (a busca da mesma é uma solução em si).

Meus mortos queridos, entretanto, não estão de um todo ausentes. Carregamos tanto de nossos ancestrais em nós mesmos (da psique ao sangue) que considerar a alma humana como um simples relâmpago efêmero é em si um erro. Ora, aquilo existiu e um dia pôde ser, não deixou de sê-lo e jamais poderá - ainda que tenha deixado de estar. Nos falta perceber presença além do físico.

Há alguma via de cura?
Construir sentido e significado para a vida são os melhores antídotos para dores que eventualmente a morte tenha desenvolvido. Descobrir qual é o significado e o sentido é uma tarefa individual. Um bom início para este movimento é o poder de aceitação - tarefa também tão árdua a todos nós, porém importante uma vez que somos corresponsáveis por nossas resiliências cotidianas. A vida é inevitavelmente farta de contingências!

Na busca incessante por compreensão e estabilidade, Emil Cioran me vem à cabeça de modo certeiro: No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!


Mikael de Melo é professor, poeta e ator nos grupos Tupam e Dell'arte Teatro. Graduado em Jornalismo, é ex-repórter da Rádio Jovem Pan.

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