A máscara

Por Elza Maia

Imagem: Elza Maia

O profundo há de amar se vestir com máscaras.
Sentado no meio da sala, assistia pela janela colonial a chuva recair sobre a terra de mansinho, despreocupada. Sua mente vagueava tácita pela monotonia, recobria-se da manta cálida do momento que parecia nunca existir. Em seus dedos a máscara jazia, surrada de uso, silenciada pela voz incessante que não poderia escapar pelos lábios despidos do adereço. Solitário, enfim, mergulhava em si como se nunca fosse tocar o chão. Ali sentia, ainda que apático, o cansaço de conter em si a vastidão do profundo, como um copo que nunca há fundo. Ali refletia, pelos orbes que fitavam inertemente a partida da chuva, o privilégio de poder despencar do céu que a natureza lhe mostrava, a liberdade de extravasar o oceano denso que prendia em si. Sobre a cadeira de madeira ansiou honestamente e sentiu verdadeiramente o desejo de escapar, de desconfigurar-se do padrão, de esvair-se em quem sabe... Mas era solidão que o aguardava, assim como a rejeição. Ainda que perpetuasse só. O profundo há de amar se vestir com máscaras, para além do medo e do refúgio. Ao trancar a porta, do lado de fora, vestia em si a face da superfície, ao voltar para casa, trazia consigo a confidente melancolia. E nessa dicotomia o homem sentava-se no meio sala, arquejava sobre os joelhos com os ombros esmorecidos, ansiava pela essência, mas se perdia em contratos e medos.


Elza Maia é uma amante da escrita e aprecia colocar no papel os sentimentos da vida cotidiana. Futura psicóloga, pretende mesclar as duas paixões em uma.

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2 Comentários

  1. não sei qual é mais profundo, o texto ou a fotografia. o texto talvez seja mais, mas a foto é de um surrealismo inquietante

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