Corrubiana Ouro-Pretana

Por Jô Drumond*

Para o professor José Eduardo de Oliveira


“Antes o obscuro que o óbvio, que o frouxo. Toda lógica contém inevitável dose de mistificação. Toda mistificação contém boa dose de verdade. Precisamos também do obscuro.”
Guimarães Rosa (1908-1967)

Encontrei casualmente, em minha biblioteca, o livro Contemplações de Dimas Guedes, com lindas fotos em preto e branco da cidade de Ouro Preto recoberta por densa névoa, fenômeno muito corriqueiro nos invernos daquela região montanhosa.



Por coincidência, recebi, no mesmo dia, pela internet, um vídeo contendo uma série de fotos de quadros do marianense Elias Layon conhecido como “o pintor das brumas”. Encantei-me com ambas as descobertas que me remeteram às minhas vivências naquela terra enevoada.

Quem já morou em Ouro Preto ou frequentou seus festivais de inverno guarda nitidamente na memória o frio enrijecedor provocado pela altitude de cerca de 1200 metros e pelo vento sudeste, assim como as belas imagens do denso nevoeiro que recobre capelas, igrejas e casarios iluminados.

A tradicional turvação atmosférica ouro-pretana será aqui denominada corrubiana (ou corrupiana), termo pouco usual, aqui empregado em homenagem a um historiador patense apaixonado por essa cidade colonial, professor José Eduardo de Oliveira, que se compraz em usar esse vocábulo, ao relembrar seus velhos tempos estudantis na antiga Vila-Rica.

Também tive o privilégio de residir por algum tempo em Ouro Preto, não na mesma época, mas apreciando igualmente a misteriosa e imutável paisagem de casarios e igrejas envoltos na densa cerração hibernal.

Lembro-me de que, numa noite enevoada, saí com um grupinho de colegas para tocar violão e cantar no adro da igreja do Carmo, ao lado do Museu Tiradentes. A vista era magnífica. Nos cocurutos dos morros, a neblina que cobria parcialmente as igrejas era perfurada pelos campanários, que pareciam flutuar nas nuvens.

Num dado momento, o violonista não conseguiu mais tocar. Seus dedos se enrijeceram de frio. Para aquecimento, nada melhor que o tradicional coquetel de “vinho quente”, servido no Bar e Restaurante Toffolo, próximo à Casa dos Contos. Descemos dois íngremes becos, cruzamos a Rua Direita, passamos pelo chafariz, seguimos até o local onde era servida a bebida mais consumida naquela época pelos estudantes, para suportar o inverno ouro-pretano: vinho tinto fervente com cravo, canela e uma pitada de açúcar. Lembro-me de que, após as aulas noturnas da Aliança Francesa, nosso grupo de alunos e professores seguia pela rua São José, respeitando a tradicional pausa no Toffolo para um caneco de vinho quente. Quando o frio era muito intenso, subíamos correndo a ladeira da Rua Direita até a Praça Tiradentes, para aquecimento total. Na Praça, local mais alto do centro histórico, assentávamo-nos por alguns instantes aos pés da estátua de Tiradentes para retomar o fôlego, e, logo após, o grupo se dispersava. Cada um tomava o rumo de sua “república de estudantes”. Minhas colegas Rosa Manna, Ângela Xavier, Dalva Souza e eu descíamos pelo obscuro Beco do Hotel Pilão até à Rua dos Paulistas, onde se situava nossa república.

Nenhuma de nós teria coragem de enfrentar esse beco sozinha, à noite. Talvez devido à parca visibilidade, becos e ruelas de Ouro Preto, assim como a imaginação dos ouro-pretanos, desde sempre foram povoados de fantasmas. Alguns eram nitidamente forjados, como o do “homem da capa preta”. Um homem nu, com uma capa preta rente ao chão, saía de algum esconderijo, postava-se diante de uma passante, abria os braços e a capa, mostrando-se por inteiro.

A falta de nitidez provocada pela corrupiana implica aguçamento da imaginação para preencher as lacunas da visualização, apenas sugerida, sem nenhum detalhamento a certa distância. No sentido conotativo, a falta de clareza da densa neblina remete-nos à incerteza, à dúvida, à hesitação, à imprecisão e, evidentemente, ao mistério. Como dizia Guimarães Rosa, “picapau voa é duvidando do ar”, ou então, “a natureza da gente não cabe em nenhuma certeza”. Sabemos que o mistério exerce atração sobre nós, pelo fato de estimular o questionamento, de aguçar o discernimento e de buscar a plausibilidade do que é aparentemente inexplicável. Talvez, por esse motivo, as pessoas com ares misteriosos sejam mais atraentes. Elas nunca se revelam por inteiro; mantêm uma cota de “je ne sais quoi”, de imprevisibilidade.

Por sua vez, o milagre, embora misterioso, é dogmático. É questão de fé, de total credibilidade em algo ou alguém, mesmo que não haja nenhuma comprovação de veracidade. Tanto o mistério quanto o milagre são enigmáticos e aparentemente inexplicáveis. O primeiro incita à dúvida e implica uma atitude de inquirição; o segundo incita à confiança e implica uma atitude de resignação. Segundo Gracián, escritor jesuíta (1601-1658), “o misterioso tem um aspecto divino”.




No trabalho pictórico de Elias Layon, personagens e paisagens são apenas sugeridos, com contornos imprecisos, adquirindo algo indefinido, e produzindo evocações na mente do espectador, de modo que o “parecer” suplanta o “ser”. Nessa neblina metafórica, formada por veladuras plásticas, abstrato/concreto e irreal/real oscilam e se fundem.

Em suas composições, as brumas se impõem transfigurando a paisagem colonial em uma atmosfera de magia e mistério. O artista não desvela a cidade; ao contrário, ele a recobre por camadas de misterioso véu que lhe dá um toque onírico, em sintonia com a assertiva do filósofo Pico Della Mirândola (1463-1494), “as coisas divinas devem ser ocultas por enigmas e dissimulações poéticas”.

* Redigido em 23 de abril de 2021

Jô Drumond é escritora e tradutora e já publicou 17 livros. Colabora com o portal Acontecendo Agora, com a Folha Patense e publica com frequência no próprio blog.

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5 Comentários

  1. Que texto maravilhoso e envolvente!!!! Deu saudades das inúmeras muitas vezes de idas e vindas em meio as brumas ao encontro do meu amado!!! 👏👏👏👏👏

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  2. Jô, obrigado pela memória, não corrubiana, clara e afetuosa. Realmente, em meus escritos, antes mesmo de morar em Villa Rica, eu já estava possuído por essa entidade física, irreal/real, aromática, perturbadora e doce, que é a corrubiana dessa cidade e das minas profundas. Pincei alguns de alfarrábios antigos e novos, que carrego como um fardo e uma dádiva, que só quem viveu, como você, sabe o que é...“Hoje nada disso existe mais. A doce corrubiana tornou-se cinza, pesada e sufocante. E é necessário aceitar, com calma, serenidade e certeza inexorável, tenho tentado... O passado virou passado, às vezes uma nostalgia, como uma doce corrubiana que surge na madrugada e que se desfaz ao meio dia e some... Você foi/Minha claridade/E minha corrubiana... que talvez perdure para sempre ou desapareça como a própria corrubiana ao sol inclemente da realidade... Te perder foi perder todos os lugares e cidades que nós amávamos/E que se perderam na corrubiana mais espessa do passado... Nas ruas de cidades corrubianas e distantes... Cada vez se torna mais espessa a corrubiana de minha existência... Sua mão estava quente mas seu coração, seu coração não tinha mais aquela temperatura anti-corrubianas...”

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  3. Corrubinei, embuçado no tempo, entre o céu e a terra, enevoado, esfregando os olhos embaçados com a nitidez de ver a vida em névoas...

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  4. ... enigmas e dissimulações poéticas”... envoltas na névoa ouro-pretana carregam o leitor por becos e vielas, sentimentos de assombros e mistérios conduzidos pela narrativa que percorre o inenarrável recoberto pelo manto das palavras. Coisas do divino!

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  5. Jo, sua crônica me remete aos idos 1970, quando conheci essa linda Cidade, que ao mesmo tempo, à noite, temos a impressão de ouvir ou ver fantasmas pelas ruas entre as brumas. Lembranças dessa viagem com meu pai, avós e irmãs. Sempre a visito, continua linda.
    Linda arte do artista. Encantada.
    Parabéns, Jo.

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