Banho de criança

Por Isadora Tavares

Imagem: Thomas Despeyroux / Unsplash

Depois de viver certo tempo neste espaço e nesta terra, me veio hoje à mente porque as crianças gostam tanto de banho. Aquela água quentinha, na temperatura ideal para eles, que causa um relaxamento onde todo corpo é envolto sem nenhuma preocupação. E foi a partir disso que cheguei à compreensão: crianças não pensam em nada enquanto estão banhando. Somente contemplam cada sensação daquele momento, brincam com patinhos, espuma e tudo mais que estiver ao seu alcance. A ocasião chega a ser quase mágica.

E como fiquei triste ao constatar que para nós, adultos, essa é só mais uma tarefa, compromisso, hábito de higiene a ser riscado de uma lista diária. Como são pesarosos os nossos banhos, pensando no que faremos para o almoço, se fulano nos respondeu, ou qualquer outra coisa que poderia esperar no mínimo mais 5 minutos para vir à nossa consciência.

Hoje, ao entrar para a ducha num dia frio, chequei a temperatura da água e estava tão aconchegante que quase cogitei alugar um quarto com banheira num hotel só para curtir algo parecido. Mas, trabalhando com o que eu podia, voltei ao presente e senti o cheiro da água. Tudo bem que talvez seja só cloro misturado ao aroma de sabonetes e cremes de cabelo, mas foi diferente, despertou-me uma memória afetiva quentinha. Deixei o líquido percorrer minha pele como o sangue correndo por dentro das minhas veias. Fechei os olhos e tentei impedir a torrente de pensamentos que insistiam em brotar. Um ou outro acabou passando, eventualmente. Ensaboei-me e devagar terminei o banho.

Ao me enxugar, mais uma lembrança: aquelas toalhas felpudas com capuz que envolvia as crianças. Um gesto corriqueiro que além de servir para secar as gotículas de água do corpo, também nos protegia e abrigava de algo que nem sabíamos o que era. Hoje, julgo dizer que era a maturidade, crescer, não ser mais um moleque ou moleca. Joguei a toalha de banho por cima dos meus ombros enquanto pegava a de rosto e a colocava sobre minha cabeça. Por alguns instantes passei a ser criança de novo. Logo após a cena a tirei e me envolvi como habitualmente. Abri a porta e deixei o local junto com a minha criança interior, que precisava ser abraçada e foi.


Isadora Tavares é redatora, jornalista e poeta nas horas vagas. Também é aluna do Curso Livre de Formação de Escritores pela Editora Metamorfose.

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