Morcegos não voam pra trás

Por Lorranne Marins


Você já imaginou o que aconteceria se um morcego tentasse fazer moonwalk? Ou melhor, se ele fosse brincar de balanço? Bom, eu também não. Mas o mágico sobre a internet é exatamente isso, em algum momento você encontra alguém que pensou nas ideias mais mirabolantes, e na minha humilde opinião, fascinantes!

Bom, um dia desses, recebi um vídeo genial chamado “Mustached Bats vs The Doppler Effect”, basicamente o autor do vídeo descreve de forma bem metódica como os morcegos usam o som para se localizar e para caçar e como a física explica detalhadamente tudo isso. Calma, não pare de ler ainda, apesar de eu, pessoalmente ter ficado apaixonada pelo conteúdo de biofísica dele, não é sobre isso que vim falar aqui.

Ao final do vídeo, Tom Lum (@tomlumperson no tiktok, onde recebi o vídeo) explica que de acordo com o estudado, os morcegos não saberiam usar a sua ecolocalização ou biossonar para se mover ou caçar insetos, se resolvessem voar de costas, pelo simples fato de que: eles não voam para trás. Tem toda uma questão física por trás disso, mas como eu disse não vou me aprofundar nisso, juro. Minha mão está coçando, mas juro que não vou. Foquemos no “morcegos não voam para trás”.

Acontece que isso me lembrou de um dizer popular que já ouvi muito, “caranguejo é quem anda para trás”. E aqui, mais uma vez não vou me estender muito com explicações sobre esse ditado, mas fiquei pensando em como de certo modo, essas duas afirmações, fundamentadas ou não cientificamente, têm algo para nos ensinar como pessoas. Pronto, falei que o texto não seria um texto técnico, não é?

O morcego não voa para trás, e o ditado do caranguejo nos ensina que o ser humano, diferentemente do caranguejo, não deve andar para trás. Em tese então, deveríamos aprender com os morcegos, e não só não voar para trás como nem nos preocuparmos com isso.

Alguns dias atrás, tive que revisitar algumas memórias, lembrar de um relacionamento passado e reajustar algumas lembranças e foi engraçado porque, apesar de eu ter consciência de que eu não gostaria de forma alguma de voltar para lá, eu me vi revirando o passado, nostálgica... saudosa... Percebi aquilo que provavelmente já vi em algum lugar, mas não tinha me dado conta até esse momento. A nossa memória tende a deixar mais bonitas as lembranças que temos do passado, e pessoalmente, eu acho que esse é o grande perigo de “voar para trás”.

É fácil cair no erro de querer ficar lá, querer refazer aquelas memórias adaptadas, repetir ciclos, tentar com “nossa ecolocalização” para encontrar coisas, pessoas e sentimentos que na verdade não existiram. “Na minha época as coisas eram bem melhores”, ouvimos muito isso, e é comum que quem diga isso seja irredutível a se adaptar com o presente, a enxergar as coisas boas e novas que estão bem na nossa frente. Assim como o morcego, a gente não devia nem se dar ao trabalho de criar algo que nos ajudasse a voar para trás, isso não é necessário, o que a gente costuma buscar já não está lá, se é que existiu um dia. A vida é vivida agora, não deveríamos desperdiçar “nossa ecolocalização” voltando para o passado, no máximo você pode aprender com os erros, deixar que eles ecoem, e te mostrem o caminho para umas escolhas melhores no presente, e até mesmo no futuro. Sejamos mais como os morcegos, e menos como os caranguejos.


Lorranne Marins tem 27 anos, curiosa, randômica e apaixonada, sempre teve a escrita como sua forma de expressão mais natural. Atualmente é estudante de Engenharia de Alimentos na UFU.

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1 Comentários

  1. Mas o problema é que a “disgrêta” do passado, bem ou mal, voa para o nosso presente, voa para ele mesmo, depois volta, volta e volta

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