Pés de Barro

Por Neto Moreira

Imagem: Entrementes

Olhos apreensivos. O desvivo não guardava paragem. Coadjuvante da própria morte. Porque todos na sala apostavam na vinda da mulher, mais formingantes que a espera de entrada de noiva na igreja. Cochicho tinha que nem pé de vento em agosto. O morto também suava frio. Os sapatos lustrados lhe apertavam os pés. A espera da Despedida, que se não acontecesse, nem valia ter morrido.

Dizem que Dom Carmindo nasceu com raízes no lugar dos pés. Só andava descalço. Ou reclamava ser filho primeiro da terra ou era necessitância de menino pobre mesmo. Mas é que batia pasto, batia bola e batia léguas em pele e unha. Botina tinha. Só não tinha necessidade. Como se toda a liberdade tivesse que ser pela poeira em seus dedos. Como se sapato fosse corda de enforcamento.

Nunca foi a missa. O pai, sistemático que nem gato e água, não queria desavença com Deus. Chamou Carmindo com trovão na garganta. Dessas de tipos antigos. Ali a negociata tinha batido as botas a muito. Ou calçava ou a vara de marmelo era alistada. Apareceu de terno e descalços. Ficou com os olhos baixos porque deferência fazia sala ao velho pai. Sete varadas, veredas de sangue, nos pés, onde lhe doía mais. A mãe acenou uma revolta, mas o pai sabia o peso do martelo da mão. Nunca foi à reza, teu deus era a terra.

Os calos e os espinhos lhe lapidaram a planta dos pés e o edifício da alma. Fez-se forte, para muito além dos dedos-juízes e, se não arrumou emprego, tinha terra querendo enxada, e tinha gente que mesmo descalço era sério, e tinha gente que suou um império. Virou Dom, já na caçoavam dos dez dedos à vista e tinha muita bisca querendo roçá-los.

Com pé no chão, Dom Carmindo levantou voos: frequentou festanças, fez negócios, viajou lugares, sem caso com desconfianças fez-se respeitado, ou tolerado ao menos. Mas um dia, quando o sol desfilava feito menina procurando casamento, Dom Carmindo sofria uma vidência de deserto: Miraculosa. Não teve como camalear seu deslumbramento. Das cabrochas desta ala era a mais radiante em prosa e verso. E, avesso à figura construída em si mesmo, desfez-se, jogando-se, descalço, aos seus pés.

Mas como todo amor é jogo, Deva correu. Correu com os pés calçados, assustados com a figura bem vestida e desprovida de teto de dedos. Havia ali impulso, susto e algum tanto de espanto. Mas a curiosidade coçava tal qual bicho de pé. E esclarecida depois, como se manhã fizesse pouso na cabeça, descobriu quem era o jeca que se aproximava como caça. Não se desfez do intento do cabra, mas não se impressionou com as posses e com o que lhe compunha a lenda.

E o flerte andou como rio fundo, sem receio das curvas do caminho. Foi fazendo estrada. E descalço, como desmanda o figurino. E o tempo construiu uma impensada costumança. O banco da praça, tapete de flores, ouviu promessas de várias vidas. E quando a intenção desabrochou na voz embargada, recebeu como apelo:

- Tem que pedir meu pai primeiro, calçado.

Carmindo tropeçou nas palavras, se sentiu ofendido. O aceite era para o todo! Seria vergonha escondida debaixo da saia? Saiu sem cuspir adeus. Andou, descalço, por muitas noites, a procura de terra firme pra cabeça. E entre a ida e a volta havia muita balança pra pesar os Como e Porquês.

Uma tarde, destas de vento-entorta-tudo, apareceu, não cisudo, mas com veias de decidido, na esquina da casa de Deva. Ela, no ritual mais santo: sentada na porta de casa a despedir do dia, viu de longe a figura de seus sonhos. Ensaiou um susto. Viu-o caminhar com dificuldade, como se cada passo estivesse a levantar uma montanha de orgulho.

Parado na porta, pediu pra chamar o pai que quentava banho. Não se falaram, mas os sapatos brilhosos nos pés do descalçado da vida, apontava o rumo de seu futuro.

Da casa de Carmindo, tenda se viu armada, porque na igreja não entrava. Foram felizes, roçando os pés deitados na cama de sonhos. Escreveram páginas da vida, entre risos e brigas. Fizeram filhos. Muitos. A cada deles, Carmindo dizia:

- Tá vendo, nasce descalço!

Mas eis que os anos, mais que bentos, foram tiranos. E Deva descobriu que o santo tinha pés de barro. Pés que corriam atrás de outros pés, que não os de Deva. Ruiram-se. O encantamento saiu pra caminhar com o vento e nunca voltou. Carmindo choveu remorsos que lavavam seus pés. Deva perdeu a fé.

A partir dali a caminhada foi vacilante. Entre copos e corpos, Carmindo cambaleava. Nunca mais se viram. As batatas da perna enrijeceram pela culpa e nem o chão tocava mais. Dizem que foi o adeus de seu Deus: a terra. E a morte lhe serviu uma bebida.

E cochicho tinha mais que pé de vento em agosto. O morto espiava e todos sabiam: Ela viria? O enterro marcado para as dezesseis, se me lembro bem. Os senhores davam corda nos relógios para não perder a hora, enquanto apostavam na chegada ou na ausência premeditada. Não veio. Cansada das mancadas dos pés descalços. Dezesseis horas. O defunto se levanta, olha pela porta em olhar de perder século. Retira os sapatos de seus pés agora azulados. Encena um suspiro. Chora sangue dos erros cometidos. E vai, sozinho, encarar novas passadas.


Neto Moreira é um poeta fajutinho, contista e compositor de rocks rurais.

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