Relicário Musical

Por Jô Drumond

(Crônica dedicada patense mais ouro-pretano que conheço, o professor e historiador José Eduardo de Oliveira)


É incrível como a música nos faz flutuar no tempo e no espaço. Recebi hoje, pelo WhatsApp, um vídeo sobre os bailes dos anos dourados, época em que os enamorados não podiam se tocar. No entanto, socialmente, podiam dançar de rosto colado, sussurrando-se deleitosas juras. Além das imagens dos bailes de outrora, o vídeo traz legendas explicativas e, o mais importante, um fundo musical impecável para a ocasião: La Mer, (1) com Ray Conniff.

Isso remeteu-me aos bailes de minha juventude, nos anos 60, em Patos de Minas e dos rodopios nas pistas de dança, ao som da canção La Mer, tanto nas horas dançantes domingueiras quanto nos frequentes bailes da Sociedade Recreativa Patense e do Patos Social Clube.

Na década de 70, quando eu morava em Ouro Preto, anualmente havia a famosa “Festa do Doze”, em que se comemora o aniversário da Escola de Minas, (2) da Universidade Federal de Ouro Preto.

Naquela época, eram programados bailes, em três dias consecutivos. A cada dia, duas orquestras tocavam simultaneamente em dois grandes salões, na Praça Tiradentes. Uma no térreo, no espaço comumente reservado ao Remop (Restaurante Escola de Minas de Ouro Preto), onde eu fazia minhas refeições diárias; e a outra tocava no piso superior, onde funcionava a Semop (Sociedade dos ex-alunos da Escola de Minas de Ouro Preto).

Durante décadas, mesmo morando fora do Estado, todos os anos eu participava dos três bailes. O 12 de Outubro era sagrado, sobretudo para meu ex-marido, ex-aluno daquela instituição e veterano da república de estudantes chamada Poleiro dos Anjos. Para mim, baile sem La Mer não era baile. Minha preferência por essa canção ainda perdura nos dias de hoje.

Certa vez, quando morávamos no Estado do Rio, deslocamo-nos para tal evento. Pela primeira vez, essa música não fez parte da seleção musical. Saí do baile às quatro horas da manhã, contrariada por não terem tocado minha canção preferida. Ao sairmos do salão de festa, percebemos que o restaurante O Relicário, situado do outro lado da praça, ainda estava aberto. O Relicário, na época, era o restaurante ouro-pretano mais procurado por turistas estrangeiros. Funcionava no local de uma antiga senzala, nos porões de um casarão: local histórico, rústico, acolhedor e gastronômico. O atendimento era excepcional. O proprietário, Senhor Valdemar, já idoso, tinha que se virar em diversas línguas, para agradar aos fregueses. Durante algum tempo eu lhe ensinei a língua francesa, para que ele se comunicasse melhor com a grande maioria dos turistas, originários de países francófonos. Ao final da aula, ele sempre me oferecia um prato especial, por conta da casa.

Pois bem, voltemos à madrugada do baile. Ao perceber que o restaurante ainda estava aberto, decidimos comer algo antes voltar ao Poleiro dos Anjos. Passamos pela portinha estreita, quase imperceptível, do restaurante, descemos uma rampa também estreita, até chegarmos à sala de jantar: piso rústico, em pedras; paredes em pedras sobrepostas; porão sombrio, sem arejamento. Imagine-se a situação calamitosa desse recinto como dormitório de escravos, amontoados no chão, sem conforto algum e sem higiene (não havia WC, nem possibilidade de banhos). Vencidos pelo cansaço da labuta nas minas, certamente dormiam o sono dos extenuados e sonhavam: sonhos, sonhos e mais sonhos. Isso não lhes podia ser negado, nem subtraído. Era o que lhes restava de bom.

Naquela noite do baile, excepcionalmente, havia música ao vivo para os comensais. Seu Valdemar nos recebeu, todo solícito, alojou-nos na melhor mesa disponível, afastou-se por alguns segundos, disse algo aos músicos e voltou dizendo que a música seguinte seria oferecida a mim. Por incrível que pareça, tocaram La Mer. Ele não sabia que eu gostava da música, muito menos que eu lastimava o fato de não a ter ouvido naquela noite. Uma feliz coincidência.

Com o tempo, parei de frequentar os bailes do Doze, mas continuei gostando de dançar a mesma música ao som dos bolachões de vinil, com orquestra e coro sob a batuta de Ray Conniff. Decidi que ela seria tocada durante meu funeral. Já que um dia serei obrigada a passar por isso, que seja com música e poesia. “Não quero choro nem vela”, como diz uma canção popular, tampouco tristeza e “rezação”. Escolhi duas músicas para a ocasião: a maviosa Sonata ao Luar de Bethoven, para entrar em sintonia com o cosmos, e La Mer, com Ray Conniff, música apropriada para rodopiar de estrela em estrela, até o infinito. Destarte, essa música que me acompanhou vida adentro, me acompanhará vida afora, muito além do ponto final.

NOTAS
La Mer (1) : Música de Charles Trenet, datada de 1943. Reza a lenda que, em 20 minutos, foi composta e registrada em um pedaço de papel higiênico, durante uma viagem de trem feita pelo compositor. 


Escola de Minas (2), da UFOP. Fundada pelo cientista francês Claude Henri Gorceix no dia 12 de outubro de 1876, a Escola de Minas é considerada pioneira em estudos mineralógicos, geológicos e metalúrgicos. 


Jô Drumond é escritora, tradutora juramentada e artista plástica. Já publicou 18 livros. Pertence a três academias de Letras: Afemil, AEL e Afesl. É colaboradora do Jornal de Patos, da Revista cultural Desleituras e publica no próprio blog.

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7 Comentários

  1. Adorei!!!! Revivi momentos felizes com o meu amado José Eduardo de Oliveira naquele mágica cidade!!!!

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  2. Cara Jô, obrigado pela deliciosa crônica, realmente amo aquela cidade, mas como meu curso foi História e apesar de termos uma convivência cordial com aquela tigrada das engenharias, tínhamos as nossas diferenças, e eu nunca participei do baile do Doze, mas ia nas repúblicas, sobretudo na Tabu, afinal, ali, como diria Bandeira, tinha versos [música], mulheres e vinho...."Vinhos!... o vinho que é meu fraco... Evoé Baco...", depois de madrugada, de volta para casa, quando a velha corrubiana era espessa, mas não conseguia encobrir meus sentidos e a minha anfitriã Villa Rica, surgia no meio da noite, no meio das brumas como uma fantasmagórica cidade alumbrada de esperanças...

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  3. Jo, Ouro Preto, histórica e com seus fantasmas nas noites frias, me remeteu ao final dos anos 60, quando a conheci, na companhia do meu pai, minha irmã e meus avós. Sempre a visito e sinto uma nostalgia.
    Que história fantástica a vida real compõe e, só você com para nos fazer viajar poeticamente.
    Adorei ouvir a música. Esses clássicos do meu tempo.
    Só me arrepiei com o seu desejo.
    Um grande abraço.

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  4. Jô,
    Realmente, a música está presente em todos os momentos de nossas vidas. Nos faz reviver a nossa juventude e os 'bailes da vida".
    Parabéns!!!

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  5. EU também vivi esta magia,dos bailes com musicas orquestradas,as quais nos dabam muitas emoções
    Parabéns por descrever tão bem ,o que foi a nossa jubentude

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  6. Menina de Ouro!!!
    Que crônica! Quanta leveza! Enlevada, a gente desliza por ela: vai à Praça Tiradentes, vê e ouve as orquestras; observa muita gente na dança. Entra no aconchegante, rústico e bem arranjado restaurante, exalando ainda memórias de criaturas, que além devem espiar, às vezes, quadros sombrios de dor, forjados na insanidade dos egos grotescos e cruéis, para ver então nossa artista e seu par, retornando ali e como convidados especialíssimos, serem alvo de tanta atenção, derramando nessas lembranças tão docemente contadas, uma das mais lindas músicas que a minha memória não conseguiu esquecer - nunca pensei que você também tenha paixão por La Mer. Ah, esses escritores fantásticos! Que poesia trazem as nossas Vidas! Parabéns, Jô! Grande abraço!

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  7. Deliciei-me Jô. Rodopiei no "aristocrático - Clube Vitória, pousado no Parque Moscoso com seu jardim de inspiração francesa, a excelente orquestra de saudoso e querido Helio Mendes - saia godê "guarda chuva" recheada de anáguas com bordado inglês (me achando linda!), os olhos também rodopiando pelo salão em busca daquele "flerte". Só falta dizer: "tempos bons, aqueles". Pois bem, dí-lo-ei: Tempos bons aqueles!... pleno de sonhos, de ingenuidade... e de músicas imbatíveis (como La mer).

    Ouvi-la ao final da crônica marejou-me os olhos.

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