Réquiem para Masha violinista

Réquiem para uma quase desconhecida, Maria ucraniana.

Texto e imagem por José Eduardo de Oliveira*

Maria tocando no Bar Na Terra – 19 de outubro de 2017

A cruel realidade

Hoje não bastasse um dia nublado e sufocante, no meio da tarde, pelo WhatsApp, uma triste notícia: a morte de Masha Serebryakova. Que conheci como Maria violinista.

Maria além de violinista e capoeirista era eximia ciclista, como tudo que fazia. Mas como naquela música antiga, o destino foi cruel e traiçoeiro e foi exatamente o ciclismo, a causa de sua morte, num acidente em uma rodovia, que lhe causou a morte em Belo Horizonte no dia 17 de novembro de 2021.

Maria era para mim uma quase desconhecida. Não sei quando nasceu, em que cidade nasceu, quem foram seus pais ou se tinha outros parentes. Sei que era ucraniana.

Mas o que importa para mim agora é essa cruel realidade: ela morreu. Mas como escreveu Nicolas Guillén, “Los grandes muertos son imortales: no mueren nunca.” E também, João Guimarães Rosa: “As pessoas não morrem, ficam encantadas.”. Maria, tornou-se agora imortal e encantada.

Antes de continuar com esse pranto, isso mesmo, é um pranto. Quero deixar aqui o trecho de um depoimento que o músico patense, Marcelo Martins, deixou para o baterista Fabiano Brandão, que repassou para meu filho Caio, sobre o profissionalismo de Maria: “Duas coisas impressionantes, sobre a Maria, primeiro, a afinação, nunca vi uma pessoa tocar violino afinado daquele tanto, e outra coisa que para mim é até mais impressionante que a afinação dela, é a questão do feeling, e como ela se adaptava em vários estilos...”.

E também, que até a sua morte, fiquei sabendo hoje, que ela fazia parte da Orquestra 415 de Música Antiga de Belo Horizonte, onde apenas virtuoses podem participar. Inclusive onde, o músico patense Leo Von Barbarosa é um dos integrantes.

O conhecimento de Maria

Maria, para mim sempre foi uma quase desconhecida. E um mistério. Mas ao mesmo tempo, quando a conheci ou quase conheci, de imediato, foi como se nos conhecêssemos há muito tempo. Talvez eu fizesse ela se recordar um velho mujique dos livros que ela leu ou viu pelas paisagens de sua terra...

O conhecimento de alguém é uma coisa desconhecida. Lembro-me de um fragmento do poema de Murilo Mendes, “O Rato de a Comunidade”: “O rato apareceu/ num ângulo da sala./Um homem e uma mulher,/Apareceram também,/...?Que sabe esse rato de mim./E esse homem e essa mulher/Sabem pouco mais que o rato.” Então o que é conhecer alguém?

Pelo pouco que convivi com ela, não precisava saber nada dela, precisava apenas conhecer. E foi o que fiz.

Ao acaso, em uma praça do Bairro Sobradinho encontrei com uma conhecida de longa data, que nunca tinha trocado com ela mais que uma ou duas palavras, Janete Porto. E como tinha um bar, ela foi lanchar e eu fui beber e fomos conversar.

Do nada e sorrateiramente, surgiu Maria.

Fomos apresentados.

Ela pediu uma bebida que não me lembro qual era. E todos começamos a beber e conversar. Até o bar fechar.

Nisso fiquei sabendo que ela era ucraniana, violinista e que às quartas-feiras, se apresentava no Bar Na Terra, do Rogério. Fiquei sabendo também que havia morado em outros países.

Não deu outra. Curioso. Em uma quarta-feira fui conferir. Fui sozinho.

Aliás, naquele bar, muitos músicos patenses se apresentaram lá. Um dos bares mais originais da cidade, senão o mais original. Que hoje não se encontra mais lá, mudou de lugar.

Um fato curioso, chovia, como hoje, na noite em que estive lá, e patense paradoxalmente não gosta de chuva e não gosta de sair em noite chuvosa e ela praticamente fez sua apresentação para mim.

Pela primeira vez também, ouvi um violino solo, e fiquei extasiado.

Conhecendo Maria

Tudo em Maria era fascinante. Talvez porque ela fosse estrangeira. Talvez. Mas não só isso.

Naquele dia, no buteco da praça, acho, que pela primeira vez conversei com duas mulheres, se é que posso dizer assim, das mais inteligentes e sábias das tantas que conheci. Sabiam de tudo. Depois conversei com ela antes da apresentação e não me lembro onde mais.

Mas Maria sabia mais, eu acho. Principalmente, uma coisa que eu não sabia muito, mas que gostava: literatura em geral, mas russa em particular.

Que viagem! Conversar com uma quase russa sobre literatura russa. Admirável demais, e o sotaque?

Conversar com aquela jovem ucraniana era como se fosse o filme de A. Rublev, de A.Tarkovsky, sua palavras tinham um gosto telúrico e o som de música do povo.

Falamos um pouco é claro de alguns escritores, como L. Tostoi, F. Dostoiévski, I. Turguéniev, M. Gorki e N. Gogol, autor de Almas Mortas, que eu me lembre. Aliás, este último, eu tinha um exemplar repetido que ela queria, porque havia lido em russo e levei para ela. Comentamos também sobre S. Lem, autor de Solaris. Livro terrível, no bom sentido.

Almas Mortas de Nikolai Gogol, no Na Terra... todos somos almas vivas...

Em algum momento, ela perguntou se eu já havia lido, um livro de Ken Kesey, “One Flew Over the Cuckoo's Nest”, que foi filmado como “Um estranho no ninho”, dirigido por Milos Forman?

Eu disse que não li o livro, mas o filme era muito bom. Então ela me disse que foi um dos melhores livros de toda sua vida. Eu disse que ia procurar o livro, mas até hoje não li.

Será que ela se sentia uma estranha no ninho? Mas todos que eu conheci e que a conhecera a amaram. Não é, Soraia?

Em algum momento, e apenas uma vez, tinha de dar uma bobeira, mais grave que as outras que já tinha dado.

Perguntei sobre a Rússia. A Rússia “socialista”!

Maria, pela primeira vez, mudou o semblante, e sua calma transformou-se em alguma coisa que não sei descrever. Vinda de seu interior. Depois ela se acalmou.

Acho que estava empolgado, com suas descrições dos russos, os escritores, e seus personagens. Só que a maioria eram de antes da União Soviética, antes de Stalin e os que vieram depois e oprimiram e cometeram e ainda comentem genocídios em todos os seus vizinhos, e o mais pisoteado é a Ucrânia, a amada terra de Maria. A terra de quem está exilado...

E ainda ontem mesmo a Rússia ameaçou invadir a Ucrânia.

Maria nos deixou, sabendo disso, em seu coração e em sua mente sensível.

Adeus?

Depois não vi mais Maria. E nem sabia dela até hoje. E dessa forma...

Dizem que quando morre um santo ou uma santa, vão para o Céu e lá anjos músicos os aguardam com uma orquestra dando as boas-vindas.

Para onde Maria for, anjos estarão esperando com um concerto, se não celestial pelo menos, sublime.

Não entendo de música. Mas acho que a vida de Maria foi uma sonata, composta e regida e executada por ela mesma. Uma breve, muito breve sonata de um só instrumento, afinadíssimo.

Nossa existência ficou um pouco melhor com a sua música e a sua curta presença entre nós, entretanto, nossa tristeza aumentou com a sua partida.

Mas...

José Eduardo de Oliveira é licenciado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto

* Masha Serebryakova, ou simplesmente Maria, a violinista ucraniana que por uns pares de anos se apresentou em solo patense em bares, casamentos e eventos, nos deixou em decorrência de um trágico acidente de bicicleta, meio de transporte do qual ela adorava. Exímia e perfeccionista com o instrumento de arco, Masha nasceu em Donersk na Ucrânia e se aperfeiçoou no violino ao passar pela Kiev National University Culture and Art, pela Universidade de Estudos Estrangeiros em Seul, na Coreia do Sul, pela Universidade Estatal de Moscou na Rússia, dentre outros lugares pelo mundo afora. Mudou-se para o Brasil em 2014, para uma imersão na capoeira, luta pela qual nutria apreço e não mais voltou para o país de origem, devido a conflitos e guerras. Fez o nome em inúmeras apresentações em Patos de Minas e se mudou para Belo Horizonte, onde desde 2019, integrava a Orquestra 415 de Música Antiga, um grupo dedicado a reproduzir fielmente a música barroca. Este ano ela integrou o Grupo Galpão para ensinar russo aos atores na montagem da peça radiofônica "Quer Ver Escuta". Faleceu tragicamente em decorrência de um acidente envolvendo um ônibus quando andava de bicicleta na última quarta-feira (17). Acima, um depoimento de José Eduardo sobre o breve contato que teve com Masha Serebryakova, no ano de 2017.

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3 Comentários

  1. Lamento o “encantamento “ de Maria violinista. Para você, Eduardo, ela foi quase desconhecida; para mim, você é quase desconhecido. Conheço seus textos e gosto de seu estilo descontraído.

    Gostei de sua frase sentenciosa:
    “O conhecimento de alguém é uma coisa desconhecida”
    Adorei essa sinestesia:
    “...sua palavras tinham um gosto telúrico e o som de música do povo.”
    Maria agora deve estar ouvindo a sinfonia dos querubins, serafins e ofanins.
    Grande abraço
    Jô Drumond

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  2. Maria siga no caminho da luz.🙌🙌🙌.

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