Engasgo

Por Neto Moreira


Não chorou quando nasceu. Não protestou à retirada do antro quente e sagrado, aos tapas que levou mostrando, cedo, o que a vida lhe resguardava. Não fez batalha contra as vozes estranhas no recinto. Não se recalcitrou contra o frio. Sentenciou o médico ao ver que respirava: “Ou é Mudo ou conformado”.

A infância foi como uma chuva fria que não cessa, dessas, dessas que nunca ganham a guerra. Molhou-lhe o rosto e as calças quantas vezes. Porque nunca, nunca, chegava-lhe, o certo, em tempo de dizê-lo, pensando sempre que as palavras mal ditas, serão sempre malditas. Esse era seu dicionário inteiro, páginas em branco escritas pelo silêncio. Não sabia confrontar, quando confrontado; não sabia perguntar, quando a dúvida lhe alcançava; não sabia dizer o desejado, (e não que o desejo não estivesse em si coroado), e, por isso, não escolheu, foi escolhido, escondido no verbo sepultado. Ou era mudo ou conformado.

Amigos não fez, porque feitos de palavras são, trocadas. E aquela possível namorada, a única a se distanciar dos risos da rapaziada para com ele, a única a encontrar uma beleza estranha na calmaria em que conversas são desnecessárias, não recebeu resposta para o pedido por ela feito. Talvez efeito da surpresa ou defeito afônico da alma, sem recursos para a fala.

Os pais não compreendiam como, aquele estudante brilhante, de notas homéricas, não se comunicava à contento da dimensão do que demonstrava. Escolheram suas roupas, seu café da manhã e nunca souberam que não gostava. Botaram-lhe uma gravata, queriam que fosse advogado, como o pai, mas justamente este que nunca defendeu sua própria causa? Os juízes em tudo sentenciavam e, mudo ou conformado, um “obrigado” era tudo que que escutavam.

Escrever, escrevia, tanto que lhe sangravam as mãos. Mas o que, ninguém soube, guardados nunca incautos, protegidos como fêmea parida, defendidos pelas mãos que diziam, ao menos o sentimento ali traduzido. Certa vez, ao contrário do que podiam presumir as mais elementares convicções a seu respeito, fez da sala arena greco-romana porque um colega lhe havia tomado uma das folhas onde vivia seu pensamento. Seu rosto, campo minado, explodiu em sangue e inchaço, mas, não antes de ter de volta, em suas mãos, aquele texto que, por pouco, não foi testamento.

A professora perguntava em desespero: - “Porque não me chamou? Porque não pediu socorro?”. Ele não respondia.

Certa vez, o pai, gritante de uma vida toda, (talvez desses equilíbrios que o universo proporciona em extremos opostos), estava a lhe imputar culpa não devida. O jovem, navegando em olhos MARejados, abriu a boca para esculpir oração fina e afiada. A mãe, paralisada, pensava: “desse sacode sairá palavras que não um “obrigado”, “tudo bem”, “o que o sr. preferir””?

Mas, não! Aqui o intento estava apossado como um orixá em seu cavalo, queria rodar a roda, fazer-se individualidade enfim, quem já não cabia dentro de si. Mas, se a ofegante respiração era sentida, as cordas vocais pareciam desafinadas, enferrujadas demais para a orquestra de sentimentos que queria estrear no palco da vida.

Seu rosto ganhou contornos do sangue concentrado na cabeça, uma erupção de palavras poderia varrer a terra dos vocábulos perdidos, mas que não eclodia! Foi, ao que parece, perdendo ar. Da expectativa dos pais nascia a filha não desejada: preocupação. Quando repentinamente começou o filho a regurgitar com violência, pequenos pedaços do que não sabiam, envolvidos em sangue.

O pai quis ia ao seu encontro, mas as mãos, primeira manifestação de toda uma vida, pedia para que se afastasse e assim, ao espanto da mãe que chorava, cuspiu centenas, milhares desses pequenos troços enlameados de sangue. A Mãe, que já não sabia por ande sambar nesta avenida, tomou a iniciativa de pegar um dos fragmentos pelo chão buscando entender a situação e, não caiu porque não tinha direção, ao ver que se tratavam de pequenos pedaços de papéis onde se encontrava escrito “NÃO!”.

Não conseguiu chamar pelo marido que a tudo presenciava e, foi até ela pisando em vários deles pela sala, pousou ao seu lado e com olhos de coruja, grandes, arregalados, partilhou da mesma sensação: espanto! O menino agora buscava respirar com mais dificuldade e a face, enegrecida, dispneia aguda, só não perdeu a consciência porque, enfiando os dedos na garganta, retirou uma folha inteira arremessada ao chão. De sangue pareciam ser as letras onde se lia: “Papai Noel, santo natalino, na voz que um menino não conseguiu fazer nascer, queria, este natal, aquele herói da TV, (quem sabe para me fortalecer o querer), e um rádio para cantar por mim”...

O Fenômeno não cessava ali:

“Caros colegas, como queria eu, em cada recreio, com vocês jogar bola, ser o camisa 9 artilheiro e”...

“Meu querido Avô, me deixastes aqui para habitar outros mundos da existência, saiba, tu, meu avô, que era o único a entender o silêncio de minhas querências, que a falta, tua, será sentida como”...

“Ana, no nome pequeno que carregas, ama até os solitários. Não esperava, nunca, qualquer demonstração deste amor que eu guardava como um sonho e o assombro de tuas palavras, fez secar as minhas. Mas, saiba, Ana que”...

Muitas se sucederam. Uma vida ou uma morte redigida na voz que nunca ganhou corpo. A derradeira expulsa, espessa como um livro, fez-lhe estremecer o espectro magro, vez que não conseguia puxar-lhe pela traqueia, caindo então ao solo do mundo que nunca lhe foi casa. Os pais se ajoelharam ao seu lado e morto estava.

Tiraram com algum custo de esforço em lágrimas, os papéis do defunto que por elas, falava. Abriram com a solenidade propícia ao momento e tudo que liam era sentimento:

“Meu Pai, não sabias tu, com os anos que te murcham a pele, que a sina dos filhos é romper com os tratados daqueles que os pariram? Muito embora me queira bem, não me queira como quer teu desejo. Não enforque o poeta com a gravata que se aperta cada vez mais pelo tempo em que se ela usa. Eu não sou você. Acolha a dança de minha alma ou lhe coloque uma navalha agora no pescoço, mas entenda que todo moço, precisa abrir seu trilho, encontrar o estribilho da própria canção. Eu não sou você, mas também não tive forças para ser Eu mesmo. Eu, navegante das palavras, nunca achei um porto sequer para descê-las à terra. E esse pronome pessoal, agora, no exato momento em que deixo o mundo, já não me tão útil. Mas quem sabe minhas palavras...” prosseguia.

Nos papéis mundanos, nesses que guardamos para atestar propriedades, pagamentos e promessas, desses burocráticos, demorados, insossos e de pouca poesia, mas, este, ao menos, um atestado de óbito com viva verdade que dizia:

“Nem Mudo, nem Conformado, este, viveu e morreu Engasgado”.


Neto Moreira é um poeta fajutinho, contista e compositor de rocks rurais

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2 Comentários

  1. Thiago, sua escrita é arte! Impressionante arte! ❤️

    ps.: tbm fiquei engasgada.

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  2. Parabéns meu amigo, excelente texto, como sempre!

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