Florescer

Por Juliana Canhestro

Imagem: @anapicxs

Questiono a convicção da minha pessoa
Trago na alma a trágica essência humana
Vide traições, arrependimentos, mácula aflora
Eu apenas estava ali, sem viver, sem existir, até música parei de ouvir
Cada linha trazia palavras direcionadas ao meu caráter, mas não me reconhecia
Era uma poesia insípida, que não era a minha escrita.

Fiquei presa naquele estereótipo
Um molde que não se encaixava em mim
Contentava-me apenas com o vinho tinto barato que ele comprava para nós dois
Fui perdendo meus traços delicados
E, impetuosamente, já não me pertencia.

Não era a verdade
Peço perdão a mim mesma
Por insistir estar naquele lugar que nunca foi meu
Estava fugindo em busca de um ideal que nunca existiria
Quero perdoar minha própria infidelidade
Por aqueles gestos de quando conseguia fingir sorrir.

A tua confusão era o atormento da minha mente
Desde então passei a ter medo
Passei a caminhar perante o abismo
Não fui imune a sua ira que me forneceu sombras.

Por desalinho do destino
Permiti-me sair daquilo
E como um sopro de ar fresco
Dentro daquele interminável labirinto
Deu-se o instante com o flerte de meu próprio coração
Toquei-me em meu rosto gélido e pálido, e o vento veio para me elucidar.

Reconheci-me e aceitei meu modo desafiador, artístico e boêmio
Depois de sair daquela tortura, da seca
Percebi que toda flor amada é bem quista
Encontrei amores
E me tornaram indeléveis
Vozes que acalmaram o resquício
De toda dor que passara por aquela alma.

Talvez eu seja uma rosa nascida no escuro
Na sombra de um muro de inseguranças
À beira de mim, aos poucos vou me construindo
Não posso ignorar os fatos relatados pelos meus passos
Para não ter perigo de pisar em falso
Sei que caberia a mim esquecer
Mas expor minha dor em versos
Também me faz florescer.

Por isso todas as manhãs
Ante a sutil aurora
Abro a janela e saboreio o café
O vento me acalma
Penso naquilo que foi terminado
Volto-me a tudo que é sublime
Respiro aliviada, pois é você ao meu lado

Não sei se foi sorte, destino, uma atitude
Alcançar você naquela tarde efervescente de dezembro
Num todo brilhava a existência da minha alma
Voltado para um eterno amor sincero.

É libertador entender tão bem os motivos do nosso próprio silêncio
Isso nos ajuda a expressar, gritar, dar um basta
A mente inquieta enlaçar o repouso
E assim, desejo que todos possam se curar dos ventos difíceis já tragados
E ter a dádiva do próprio perdão.


Juliana Canhestro é uma advogada apaixonada pela música e a natureza. Em constante crescimento e conhecimento, gosta de escrever e sonhar nas horas vagas.

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