Stonewall, 28 de junho de 1969: O Orgulho Gay 51 anos depois

Por José Eduardo de Oliveira 
“A linguagem com que fomos ensinadas a nos diminuir e a diminuir nossos sentimentos, considerando-os suspeitos, é a mesma linguagem que usamos para diminuir nossas irmãs e suspeitar umas das outras.” Audre Lorde.
O Bar Stonewall In em 1969
após a rebelião / Diana Davies
A homossexualidade pode ser comprovada historicamente, ou seja, documentadamente, em toda trajetória da humanidade. E cada época e sociedade trataram-nas de diversas formas, e quase sempre, de formas cruéis de desumanas.

Contudo em pleno fim do século XX, apesar dos avanços da ciência, da tecnologia e dos costumes, a questão de como a homossexualidade era vista na maioria dos países do mundo não havia se modificado muito.

Assim as pessoas LGBTIQ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, intersex e queer), até então tinham que viver sem a aceitação das instituições, dos pais, da escola, dos parentes, vizinhos, amigos, em suma do Mundo todo. E o pior é quando não se aceitavam mesmo diante do próprio autoconhecimento e traumáticas experiências. E por que não aceitar o que se é? É simples, as pessoas que você ama e que te amam, não te aceitam, então como te aceitar? Como se alguns seres humanos não fossem criaturas de Deus ou resultado de uma evolução, mas apenas detestáveis e sujos adjetivos: sodomita, veado, lésbica, gay, dike, pederasta, sapatão, bicha, fanchona, travesti, gilete, e que além de serem considerados como, pecadores, anômalos e degenerados a homossexualidade seria, além disso, como um distúrbio mental. As mulheres lésbicas seriam estigmatizadas duplamente, pela lesbofobia e o machismo. E as mulheres negras, triplamente, pela lesbofobia, machismo e racismo. Sem contar, uma misoginia atávica patriarcal que as espreitam como um pesadelo constante. E assim os homossexuais sempre foram condenados a uma vida dupla e sem visibilidade ou então a uma existência underground em seus próprios cotidianos...

E o que herdavam? Além de condenações em prisões sórdidas e/ou à pena de morte, a frustração intelectual e profissional, a solidão, a depressão, as drogas, o alcoolismo e o suicídio, isso se sobrevivessem à violência das pessoas heteronormativas ou “normais”, no trabalho, nas ruas, nas escolas, em casa etc.

Mas na década de 60, talvez a mais pródiga e benéfica de todo o nefasto e sanguinolento século XX, muitos eventos, alguns deles trágicos, trouxeram mudanças revolucionárias.

Um desses eventos seminais por assim dizer, foi a Rebelião de Stonewall, que foi o ápice de uma série de motins e confrontos entre policiais e homossexuais e ativistas em várias cidades americanas.

Stonewall Inn era um dos inúmeros bares noturnos frequentados pela comunidade gay, drag queens, drag kings, travestis, trans, michês e lésbicas de Nova Iorque localizado entre os números 51 e 53 na Rua Christopher, no bairro boêmio de Greenwich Village, em Manhattan, e como os outros eram constantemente tomados por violentas batidas policiais onde além de prisões e maus tratos ocorriam até mortes.

Todo movimento social espontâneo tem seus motivos de acontecer, mas ninguém sabe quando começa e quando e como termina. E foi assim no bar Stonewall, na madrugada do dia 28 de junho de 1969.

A única foto conhecida da primeira noite de
rebeliões / Reprodução: Hypeness
Parecia uma noite corriqueira, quando de repente policiais fardados ou à paisana invadiram o estabelecimento e o confronto se estabeleceu, com agressões generalizadas, quebra-quebra, incêndios e depredações no interior e fora do bar e quem estava dentro não podia sair e quem estava fora não podia entrar. Nesse ínterim, mais policiais e frequentadores do bar e imediações se avolumaram e isso durou o resto da noite com prisões e tumultos. Nos dias seguintes aconteceu quase a mesma coisa. Só que agora os homossexuais fizeram circular panfletos, jornais e palavras de ordem. Nascia o orgulho gay (Gay Pride Day) que além de reverberar positivamente em todo o mundo para o fim dos preconceitos e agressões, teve início um movimento que ainda não parou, pois como escreveu Angela Davis, “A liberdade é uma luta constante.”.

Foto dos dias que se seguiram à rebelião
em Stonewall / Reprodução: Hypeness
E no ano seguinte, 1970, neste mesmo dia 28 de junho, aconteceu a primeira Marcha do Orgulho Gay em Nova Iorque, em comemoração, mas, sobretudo para consolidar a luta pelos direitos LGBTIQ. Desde então as paradas acontecem em várias partes do mundo, no Brasil a primeira aconteceu em 1995 no Rio de Janeiro.

E neste ano apesar da pandemia e da intolerância generalizada de muitos, a ausência das paradas nas ruas dependerá da criatividade de cada um para que de alguma forma não haja esquecimento, e Audre Lorde nos admoesta novamente, “...não me tornarei ainda mais vulnerável colocando as armas do silêncio nas mãos dos meus inimigos.” Ou seja, aqueles que se orgulham de serem inimigos e querem silenciar quem não é binário, branco, heterossexual e patriarcal.

Primeira Parada Gay, um ano depois de
Stonewall, 1970 / Reprodução: Hypeness
Vale ressaltar que, no dia 24 de Junho de 2016, o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, oficializou Stonewall Inn como monumento nacional pelos direitos LGBT.

Dessa forma, segundo o site ShareAmerica, “O Monumento Nacional de Stonewall abrangerá uma faixa de 3,1 hectares do bairro de Greenwich Village, incluindo a taverna, o pequeno parque adjacente chamado Parque Christopher e as ruas vizinhas onde as pessoas se revoltaram depois que o bar gay foi invadido pela polícia em 1969. Obama disse que o monumento ´contaria a história de nossa luta pelos direitos LGBT´ e de um movimento pelos direitos civis que se tornou parte dos Estados Unidos.”

Um homem acende velas no lado de fora do
Stonewall Inn de Nova Iorque para homenagear
vítimas do tiroteio em uma boate gay de
Orlando em junho de 2016 / © AP Images
E aí?

E aí que, mesmo a despeito dos movimentos e lutas e o apoio de grande parte das sociedades, em várias partes do mundo, os eventos de Stonewall e muitas das reivindicações continuam sendo ignoradas e a homofobia, a lesbofobia e a misoginia ainda discriminam, agridem e até condenam homossexuais à morte, sobretudo os gays.

Entretanto, e partindo do presente para o passado as conquistas LGBTIQ, ainda que insuficientes, estão á caminho e a última delas aconteceu exatamente nos Estados Unidos no último dia 16 de junho: a Suprema Corte estendeu a eles as proteções da legislação de direitos civis de 1964 contra discriminação no trabalho. No Brasil no ano passado, o Supremo Tribunal Federal aprovou que a homofobia e a transfobia são agora considerados crimes.

Bandeira arco-íris, símbolo do movimento LGBTIQ,
com as cores de cima para baixo, vermelho, laranja,
amarelo, verde, azul e violeta / Reprodução: Wikipedia
Além disso, em muitos países, inclusive no Brasil, as principais conquistas nos últimos anos foram: uniões estáveis e o casamento homoafetivo, cirurgias de redesignação sexual, a escolha de como quer ser chamado, inclusive em seu registro civil e a despatologização da homossexualidade dentre outros. Entretanto, como nos adverte o ex-parlamentar holandês Boris Dittrich, "Aprovar leis não é o suficiente porque descobrir-se gay ou trans gera medo de ser excluído ou discriminado, o que pode isolar ainda mais essas pessoas.", (...) “Mesmo na Holanda de hoje, um casal do mesmo sexo caminhando de mãos dadas pode ser alvo de violência. Podemos aprovar mais leis, mas elas não são capazes de eliminar o preconceito. Quando uma pessoa descobre sua orientação sexual ou identidade de gênero, tem de fazer uma escolha que é muito solitária e leva em consideração perigos reais. Expressar ou não uma orientação ou identidade diferente gera uma série de angústias e medos porque, infelizmente, em muitos casos aqueles ao redor não respondem de maneira positiva, o que pode ser muito perturbador e traumático.”

Uma questão continua recorrente em todos os grupos e ainda está sem resposta: quantos Stonewall´s ainda serão necessários?

DESAFIOS E CONQUISTAS DOS LGBTIS*

A partir dos anos 1950
Surgem as divas trans que se tornam grandes estrelas no Brasil e na Europa, como Rogéria, Jane di Castro, Eloína e Fujika, entre outras

1969
LGBTs de Nova York colocam fim às agressões que sofriam em batidas policiais realizadas num bar da cidade, o Stonewall Inn. O grupo resistiu por três dias em 1969, numa época em que se relacionar com pessoas do mesmo sexo era ilegal em todos os estados americanos.
O movimento estimulou uma marcha sem volta de LGBTs por mais igualdade de direitos em várias partes do mundo e ficou conhecido como a revolta de Stonewall

1978
Início do movimento pelos direitos LGBT no Brasil. É fundado, no Rio de Janeiro, o jornal Lampião na Esquina, voltado para as questões da comunidade. Em São Paulo, surge o Somos.

1982
Ocorre a famosa passeata contra o delegado José Wilson Richetti, que realizava batidas policiais no centro de São Paulo contra travestis, gays e prostitutas sobre o pretexto de moralização social

1983
Em 19 de agosto de 1983, um protesto realizado por lésbicas e apoiado por grupos feministas pôs fim às discriminações sofridas no Ferro’s Bar, centro de SP. O ato ficou conhecido como o "Stonewall brasileiro" [Dia Nacional do Orgulho Lésbico]

Anos 80 e 90
Anos de pânico: o HIV chega ao Brasil e faz estrago conhecido como “peste gay”. Na Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo é organizado o primeiro núcleo de luta anti-Aids. Morrem Darcy Penteado, Caio Fernando Abreu e Cazuza por complicações da doença

1985
O Conselho Federal de Medicina retira a homossexualidade de sua lista de doenças

1990
OMS (Organização Mundial da Saúde) retira a homossexualidade de sua lista de transtornos mentais

1992
No Piauí, Kátia Tapeti é eleita a primeira vereadora trans na história da política brasileira

1995
As primeiras Paradas do Orgulho LGBT são realizadas em Curitiba e no Rio

1997
A cidade de São Paulo sedia sua primeira Parada LGBT. Em 2006, a passeata paulistana entra para o Guinness Book como o maior evento do gênero

2001
O governo de São Paulo promulga a lei 10.948 que penaliza práticas discriminatórias em razão da orientação sexual e identidade de gênero

2002
O processo de redesignação sexual, a chamada cirurgia de “mudança de sexo” do fenótipo masculino para o feminino é autorizada pelo Conselho Federal de Medicina. Em 2008, passa a ser oferecida pelo SUS (Sistema Único de Saúde)

2011
STF (Supremo Tribunal Federal) reconhece a união homoafetiva, um marco na luta pelos direitos LGBT

2018
STF decide que transexuais e transgêneros podem mudar seus nomes de registro civil sem necessidade de cirurgia

2019
STF enquadra a homofobia e a transfobia na lei de crimes de racismo até que o Congresso crie legislação própria sobre o tema

2020
STF declara inconstitucionais as normas que proíbem gays de doar sangue

Fonte: Livro Devassos no Paraíso - João Silvério Trevisan. Editora OBJETIVA (APUD- *Dhiego Maia - Folha de S. Paulo, 16.05.2020 - https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/05/ha-30-anos-oms-tirou-homossexualidade-de-catalogo-de-disturbios.shtml)

PARA SABER UM POUCO MAIS

LIVROS:
Bruno, BIMBI, O fim do armário; lésbicas, gays, bissexuais e trans no século XXI; Leandro COLLING (Org.), Stonewall 40 + o que no Brasil?; James N. GREEN, Além do carnaval; a homossexualidade masculina no Brasil do século XX; James N. GREEN et. al. História do movimento LGBT no Brasil; Miriam, GROSSI; Anna Paula et. al. Conjugalidades, parentalidades e identidades lésbicas, gays e travestis; Rafael M. Mérida JIMÉNEZ, (Org.) Manifiestos gays, lesbianos y queer; testimonios de uma lucha (1969-1994; Audre LORDE, Irmã Outsider; Luiz MOTT, O lesbianismo no Brasil; Camille PAGLIA, Mulheres livres, homens livres; sexo, género, feminismo; Paul B. PRECIADO, Manifesto contrassexual; REVISTA CULT 235. Os 40 anos do movimento LGBT no Brasil; o desejo de transformação e uma revolução política por fazer; Colins, SPENCER, Homossexualidade: uma história; Amilcar TORRÃO FILHO, Tríades galantes, fanchonos militantes; homossexuais que fizeram história; José Silvério TREVISAN, Devassos no Paraíso; a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade.

DOCUMENTÁRIOS:
Antes de Stonewall, de Greta Schiller (1985) – Amazon Prime
As Revoltas de Stonewall, de Kate Davis (2010) - Youtube
Vida e morte de Marsha P. Johnson, de David France (2017) - Netflix

FILME:
Stonewall – A luta pelo direito de amar, de Nigel Finch (1995) - Youtube

José Eduardo de Oliveira é licenciado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto. É autor de três livros, sendo o último "Bento Rodrigues: Trajetória e Tragédia de Um Distrito do Ouro", lançado em 2018.

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