De onde veio o coronavírus e o que nós patenses podemos fazer para evitar a próxima pandemia

Por Gustavo Lagares
A Mata do Catingueiro em uma situação anterior
de queimada ocorrida em 2017 / Luiz Araujo
No grave momento pelo qual o mundo passa, sofremos em Patos de Minas a dispersão do novo coronavírus, que já ceifou a vida de mais de 80 mil pessoas no Brasil e deixou outras milhares com sequelas. Nesse cenário crítico, a necessidade do isolamento social para reduzir a contaminação e não lotar as UTIs é um consenso entre especialistas (1). Países que fizeram um isolamento real já começam a flexibilizar as medidas sanitárias, enquanto o Brasil vê a curva de contaminação permanecer em um nível elevado por meses.

Em nossa cidade, onde já ocorreram quase 1000 casos e pelo menos 9 mortes, um grupo de pessoas insiste na reabertura precoce do comércio, colocando mais vidas em risco. Não conseguem ou não querem compreender que o baque econômico é inevitável e que quanto antes reduzirmos a curva de contaminação, mais cedo a atividade econômica pode retornar à normalidade.

Além do isolamento, a pandemia demanda outra ação extremamente importante, essa para evitar que a situação se repita. Ela se chama conservação ambiental. Sim, preservar a natureza é a principal forma de evitar uma nova pandemia. Nos últimos anos, a maior parte das novas doenças foi proveniente de zoonoses (60%), a maioria delas (71,8%) originária da vida selvagem (2). De acordo com Rob Wallace, em seu livro "Grandes Fazendas Produzem Grandes Gripes" (3), a transmissão de zoonoses para humanos ocorre principalmente pela pecuária intensiva, que amontoa animais e favorece a disseminação de doenças entre eles e para o ser humano; e pela destruição de florestas e outros biomas - como por exemplo, o Cerrado.

Em uma área degradada, os animais que sobrevieram à destruição inicial tornam-se muito mais suscetíveis a adoecerem (4). Com a devastação de seu habitat e a aproximação de madeireiros, fazendas e até cidades, aumenta o contato com os humanos. E assim ocorre uma transferência zoonótica! Com a intensificação desses dois fatores, a taxa de surgimento de novas doenças vem aumentando assustadoramente nos últimos 30 anos.

Muitas pessoas, por não terem essas informações, aceitam qualquer teoria maluca para explicar a tragédia que vivemos. Não por acaso se espalhou a ideia já refutada (5) de que o vírus que afetou milhões de pessoas na China teria sido criado em um laboratório do próprio país para favorecê-lo de alguma forma. Além de repetir a velha estratégia estadunidense de criar um inimigo externo, essa narrativa responde a demanda inevitável de encontrar um culpado pela situação. Entretanto, teorias da conspiração sem fundamento apenas distraem as pessoas dos fatos e as impedem de tomar decisões racionais. O fato é que nosso sistema econômico necessita da destruição ecológica para funcionar, principalmente a agricultura monocultural, a mineração e a especulação fundiária.

Um filhote de macaco prego fugindo pela
cerca após a queimada de 2017 / Luiz Araujo
Estudos sugerem que a COVID-19 tenha surgido na China (6) em decorrência da destruição do habitat de morcegos. Tendo em vista a situação brasileira, culpar os chineses é ignorar que esse também é um problema nosso. O país é uma das zonas de risco mundial para surgimento de novas epidemias por características como clima, biodiversidade e desigualdade territorial. E assim como na China, aqui também se consome a carne de muitos animais silvestres. No entanto, o pangolim, possível hospedeiro intermediário do coronavírus, é uma iguaria caríssima, consumida apenas pela elite asiática e por estrangeiros (7). No caso do Brasil, o principal risco de um evento zoonótico advém do desmatamento, que após 15 anos de redução consistente, bateu o recorde desta década em 2019 - 30% a mais do que em 2018 (8).

Toda essa destruição também é contribui para a concretização de outros cenários críticos, como o aquecimento do planeta, o esgotamento da água potável e da terra arável, a eutrofização de rios e mares, etc. Todos resultados da forma que produzimos e consumimos nesse planeta. Nessa lógica os ganhos são apropriados por poucos, mas os custos são divididos socialmente. É isso que pode ter ocorrido em nossa cidade, na Mata do Catingueiro, assolada por um incêndio com fortes indícios de intencionalidade. Enquanto a destruição dessa mata nativa - uma rara transição entre os biomas do Cerrado e da Mata Atlântica - é uma perda inestimável para a cidade, é também a eliminação de um empecilho para aqueles que desejam lotear a região. Com isso, poucos ganham e muitos perdem. Ainda que o fogo tenha sido causado por alguém sem interesse nisso, a situação só demonstraria a falta de consciência da população sobre a importância do meio ambiente.

O que nós patenses podemos (e devemos) fazer para evitar a próxima pandemia e outros cenários terríveis que se avizinham é nos mobilizarmos contra a destruição ambiental. É necessário pressionar as autoridades para que investiguem se o incêndio foi criminoso, mas também para que haja maior investimento em educação ambiental. Mais do que isso, devemos questionar nosso consumo excessivo, dar preferência a alimentos orgânicos, diminuir o consumo de carne e apoiar representantes políticos que tenham projetos concretos para preservar nosso ambiente. Do lado do produtor, é preciso fazer uma transição para sistemas agroecológicos, que produzam alimentos nutritivos e sem veneno, preservando a fertilidade do solo e a qualidade da água. Uma cidade que sempre usufruiu da riqueza provida pela terra jamais deve ignorar sua importância.

1- Sociedade Brasileira de Imunologia. Manifesto Público a favor do isolamento social como forma de prevenção e contenção da COVID-19. 25 de Março de 2020. Disponível em: https://sbi.org.br/2020/03/25/manifesto-publico-a-favor-do-isolamento-social-como-forma-de-prevencao-e-contencao-da-covid-19-sociedade-brasileira-de-imunologia-sbi-25-de-marco-de-2020/
2- JONES et al. Global trends in emerging infectious diseases. Nature. v. 451, Fev. 2008.
3- WALLACE, R. Big Farms Make Big Flu. Dispatches on Infectious Disease, Agribusiness, and the Nature of Science. New York: Monthly Review Press. 2016.
4- FAUST et al. Pathogen spillover during land conversion. Ecology Letters. 2018. VIDAL, John. Destroyed Habitat Creates the Perfect Conditions for Coronavirus to Emerge. COVID-19 may be just the beginning of mass pandemics. Science. 18 de Maio de 2020. Disponível em: https://www.scientificamerican.com/article/destroyed-habitat-creates-the-perfect-conditions-for-coronavirus-to-emerge/
5- ANDERSEN et al. The proximal origin of SARS-CoV-2. Nature. 17 de Março de 2020.
6- Here's how scientists know the coronavirus came from bats and wasn't made in a lab. 13 de Julho de 2020. Disponível em: https://theconversation.com/heres-how-scientists-know-the-coronavirus-came-from-bats-and-wasnt-made-in-a-lab-141850
7 - BBC. Conheça o mamífero mais traficado do mundo. 2015. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/02/150205_pangolim_trafico_mamiferos_rm
6- Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). A estimativa da taxa de desmatamento por corte raso para a Amazônia Legal em 2019 é de 9.762 km². 18 de Novembro de 2019. Disponível em: http://www.inpe.br/noticias/noticia.php?Cod_Noticia=5294

Postar um comentário

3 Comentários

  1. Do pobre Bertolt Brecht (1898-1956- "Dessas cidades vai restar: o que as atravessou, o vento!" E a catinga asfixiante das chamas e das cinzas da Mata do Catingueiro.

    ResponderExcluir
  2. Excelente texto Lagares! Vivemos uma confluência de crises, da alma à sociedade, estamos à beira de um colapso :(

    ResponderExcluir
  3. Parabéns pelo texto!!!!
    👏👏👏👏


    ResponderExcluir

Obrigado por comentar!