Geraldo Fonseca, historiador? Um intelectual patense quase anônimo

Por José Eduardo de Oliveira

“o que ele fez a forma como deu sentido pras coisas perdidas no tempo pelos idiotas do eterno presente, foi para que elas não se perdessem.” Antônio Luiz Vieira, o Tonhão, dos tempos indeléveis da UFOP, quando ainda tínhamos utopias e horizontes.

Geraldo Fonseca - Foto: Evandro Fonseca
In: Domínio de Pecuários
A Academia de uns tempos para cá, digo, desde inícios do século passado, com ares de renovação teve uma voraz sanha em rotular e fatiar como uma linguiça suína frita – ainda que em pedaços diferentes -, as ciências sociais. Mais ou menos assim, História, sociologia, antropologia, filosofia, geografia etc., sem contar que elas também foram reduzidas por assim dizer em campos ideológicos, antípodas e inimigos: marxistas, liberais, conservadores, católicos etc.

Há muito tempo atrás já fiz parte desse seleto clube dos rotuladores que como uma doença maligna, ela pode até curar, mas deixa sequelas indeléveis. Então começarei rotulando. Para mim o patense Geraldo Fonseca (1927-1995), foi historiador. Mas não só isso e tentarei explicar.

Entretanto, aqui em Patos de Minas e imediações, todos os pesquisadores que se arriscam, inclusive em picadas inacabadas e perigosas, e escrevem o que eu considero serem livros ou trabalhos históricos, são rotulados de memorialistas, positivistas, historiógrafos etc. Não que isso seja um demérito. E muitos doutores, mestres e quejandos dessa doce e amena plaga, que sequer escreveram um livro, se intitulam historiadores. Vanitas vanitatum et omnia Vanitas (que significa mais ou menos: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade – Ecl., 1, v. 2).

Geraldo Fonseca nasceu em Patos de Minas no dia 15 de janeiro de 1927 e faleceu em Belo Horizonte no dia 19 de junho de 1995, aos 68 anos e, segundo depoimento dado por Dácio Pereira da Fonseca para Altamir Fernandes de Sousa, em cumprimento à sua última vontade, foi sepultado em Patos de Minas.

Sua biografia ainda espera um autor. Dados de sua trajetória se encontram fragmentados e esparsos, mas os poucos elementos que disponho conseguidos aqui, através de telefone, internet ou mesmo em minha biblioteca, configuram uma vida fecunda, cheia de atividades, pesquisas e trabalhos em vastas áreas do conhecimento.

Não me lembro de quando entrei em contato com o seu livro DOMÍNIOS DE PECUÁRIOS E ENXADACHINS e nem com outras pesquisas e publicações de sua produção intelectual. Mesmo que durante muito tempo tenha me defrontado com esse livro e outras citações, não dava muita importância. Sou patense, mas quando criança mudei-me daqui e só me estabeleci definitivamente em 1994, portanto se tinha raízes aqui, não tinha muito vínculo com as coisas “paturebas”.

A TRAJETÓRIA DE UM PATENSE AUTODIDATA
Ser autodidata nos dias de hoje é uma coisa inaceitável e porque não dizer inadmissível. Atualmente a meritocracia exige diplomas e mais diplomas, de mestres, doutores etc. E nós sabemos que no Brasil de antigamente e até no século passado nós tivemos autodidatas que provaram e comprovaram que diplomas não comprovam capacidade de ninguém e sim o que se produziu. Se fosse listar aqui, os autodidatas geniais nacionais ficaria o resto do ano. Portanto citarei três, um nacional, um estadual e um municipal.

O nacional, talvez o maior de todos e que dispensa comentários, foi Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), o estadual, mineiro de Matias Barbosa, Eduardo Frieiro (1889-1982), foi jornalista, crítico literário, professor universitário, romancista, ensaísta, além de poliglota e escreveu cerca de 20 livros. O municipal, Geraldo José da Fonseca, também autodidata. Estes três tiveram algumas coisas em comum além de serem polígrafos. A primeira, aliás, que todos nós não possuímos foi a aversão à preguiça e à indolência; a segunda, que não puderam escolher, não nasceram em “berço esplêndido”, a terceira, começaram suas carreiras nas letras como tipógrafos, ou seja, compondo páginas de livros e jornais dos outros com tipos móveis, para depois comporem suas próprias páginas, mas eternas páginas.

Machado de Assis
Reprodução/Wikimedia Commons – autodidata brasileiro
Eduardo Frieiro – Reprodução
descubraminas – autodidata mineiro

E o que temos escrito sobre Geraldo Fonseca?

Além dessa entrevista, feita pelo JORNAL DOS MUNICÍPIOS, e publicada em 3 de novembro de 1972, que transcrevo na íntegra:

“Em dias da semana finda, JORNAL DOS MUNICÍPIOS teve a oportunidade de tomar amplo conhecimento do livro ‘Patos de Minas – a Verdade Histórica’, [que depois teria o título definitivo de DOMÍNIOS DE PECUÁRIOS E ENXADACHINS] de autoria do jornalista Geraldo Fonseca, há muitos anos radicado em Belo Horizonte.

Assim, num bate-papo telefônico, aqui vai, para os leitores, a primeira entrevista que o autor concede sobre sua obra:

JM - Geraldo Fonseca, em primeiro lugar seus dados pessoais.
GF - Nasci, ai, na Beirada da Lagoa, Rua da Lagoa em 15 de janeiro de 1927. Fui membro ativo da turma dos lagoeiros. Que de tempos em tempos se mandava para os lados do Brasil, numa briga constante com os vargeiros. Tudo que sou na vida, devo ao meu pai Manoel Luiz Ferreira, minha mãe Maria Bárbara de Jesus e às mestras Ângela Mourão e Theolina Vilela. Meus colegas de infância e adolescência foram os filhos da Altina Corrêa, do Manoel Belisário, do João Maria, do Zé Vaz (a cidade de hoje conhece o jornalista e vereador; a daquele tempo, conheceu um ‘duro na queda’, o Zé-Maria-do-Zé-Vaz, que nunca apanhou de ninguém! Nossas piscinas eram o Córrego do Monjolo, o poço do Chico Milota, o Ribeirão da Fábrica e a Praia do Paranaíba. Nossos quintais preferidos, no tempo das mangas ou das jaboticabas, eram os do Juca Borges, da dona Inhá, da dona Queta, do então vigário Fleury, da Josefina e do Juca Santana. No do Juca Borges e no de dona Inhá o recurso era entrar sem pedir.

JM - E o livro, ‘Patos de Minas -a Verdade Histórica’. Por que o título? Será a abertura de alguma polêmica?
GF - De forma alguma, não é polêmica. Busco a verdade histórica de Patos de Minas desde 1945. 27 anos de pesquisas, que me levaram ao Arquivo Nacional, aos arquivos públicos de São Paulo, Minas e Pernambuco; a documentação histórica ouro-pretana, sabarense, igreja de Bom Despacho, Cúria da Mariana e dezenas de órgãos estaduais. O título, o adotei, porque há muita coisa escrita sobre Patos de Minas, no particular histórico, ditada nas esquinas ou ´por ouvir dizer’.

Primeiro livro sobre a História de Patos de Minas – 1971
JM - Esta afirmativa tem algo a ver com ‘Patos de Minas: Capital do Milho’, do polígrafo Oliveira Mello?
GF - O professor Oliveira Mello amigo e esforçado pesquisador, jamais sofreria restrições de minha parte ao seu trabalho. Filho de Paracatu, mas numa terra que ele adotou como sua também, ele pretende com o seu livro prestar uma homenagem, muito justa, à minha terra. E o fez de maneira filial, dedicando a ela seu primeiro levantamento histórico. Infelizmente, sua atilada perspicácia de pesquisador e os recursos dos quais dispôs, não o capacitaram a chegar a fontes mais límpidas do conteúdo histórico de Patos. Não faço restrições, mas observo lacunas a serem preenchidas, por ele, ou mesmo através do meu trabalho, em diversos capítulos. Isso é natural. O mesmo poderia acontecer comigo, caso eu adotasse como minha a terra de nosso primeiro padre – José de Brito Freire e Vasconcellos (e não Manoel de Brito), e quisesse prestar a mesma homenagem à culta Paracatu.

JM - Você possui o ‘Patos de Minas: Capital do Milho’? 
GF - Não. Tomei por empréstimo. Caminhei-o por inteiro, página por página. É um trabalho de fôlego. Pena que não tivesse uma subvenção à altura – da municipalidade – para que se pudesse editar um dezena de milhares de exemplares. Pois, por mais que o buscasse nas livrarias de BH, não pude encontra-lo. Assim, infelizmente, são as edições do autor no Brasil. Limitadas aos recursos de seu próprio bolso.

JM - Você pretende editar ‘Patos de Minas -a Verdade Histórica’, com recursos próprios?
JF - Não. O livro conterá, no mínimo, 500 páginas. Até agora, tudo tem corrido por minha conta. Mas, para a arrancada final, tenho em mira um ou dois ‘padrinhos’, dos quais prefiro omitir a citação de nomes, que já prometeram ajuda ao ‘afilhado’. Poderia apelar, quem o sabe, no futuro para a Prefeitura Municipal de Patos de Minas. Pois, em anos passados, já fui hóspede oficial da mesma Prefeitura, na administração do Prefeito Ataides, para uma conferência sobre a história de Patos de Minas e, mesmo a Câmara Municipal, em anos anteriores, por indicação do vereador José Maria Vaz Borges, já me convocara para fazer, em plenário uma conferência sobre o mesmo tema. Daí, achar que a própria Prefeitura, caso julgasse interessante, fizesse um concurso, aberto a quem dele interessasse participar, com uma comissão julgadora de alto nível, cuja finalidade seria o patrocínio editorial de uma história completa de Patos de Minas.

JM - Além de ‘Patos de Minas -a Verdade Histórica’ tem em mira outros trabalhos?
GF - Tenho, e prontos. Em setembro, ao ensejo do Sesquicentenário da Independência, lançarei ‘Minas – a Independência em Energia. ’ , que é um histórico da iluminação e da energia hidrelétrica em Minas, desde os tempos da iluminação à azeite de mamona, na província de 1834, o período da iluminação à querosene, e a gás acetileno, e as usinas pioneiras de Juiz de Fora, Barbacena, Lavras, São João Del Rei, Cataguases, Leopoldina, Rio Novo, Uberaba e dezenas mais de outras que anteciparam a Patos de Minas na conquista da luz elétrica. Tenho, pronto, para 1973, ‘Primeiro Tempo do Futebol em Minas Gerais - 1904-1933’, trabalho que enfoca o futebol mineiro, interior e capital, desde seu aparecimento em 1904 até o profissionalismo, em 1933. Futuramente, coleto fichas para a redação do ‘Segundo Tempo do Futebol em Minas Gerais -1933’ até o ano da edição.

JM - Alguma referência sobre Patos de Minas, ao plano intelectual?
GF – A gente acompanha, com interesse. A Academia Patense de Letras, para a fundação da qual assinei em duas atas, é uma promessa. A propósito, meu amigo Oliveira Mello cita, em seu livro, a Assembleia da fundação e dela não consta o meu nome. Assim, com o testemunho de Altino de Castro, Silvio Gabriel Diniz e Altamir Pereira da Fonseca, aqui reivindico a justiça da minha participação. Eu estive presente. Tanto na Casa das Representações, quanto na residência de dona Filomena, na Rua Padre Caldeira. O reivindico, a bem da verdade histórica. Não estou imaginando. Por isso mesmo invoquei o testemunho de três amigos. Pois, jamais poderia trair Carlyle, quando afirma: ‘A história é o documento, e não a imaginação. ’” (p. 3)

Em 1974 foi publicado nas orelhas de seu livro, DOMÍNIOS DE PECUÁRIOS E ENXADACHINS, o que considero a primeira “biografia” completa de Geraldo Fonseca e foi escrita por Edelweiss Teixeira (1943-1986), mineiro de Pouso Alegre, que além de médico e odontólogo, foi escritor e pesquisador sobre o Triângulo Mineiro. Por nos trazer em primeira mão junto com o livro, eis quase que na íntegra a sua apresentação do livro e do autor:

“DOMÍNIOS DE PECUÁRIOS E ENXADACHINS

Pecuário, s. m. (Lat. pecuarius). Criador ou tratador de gados.
Enxadachim. Neologismo. Achado de Guimarães Rosa, louvação ao homem que esgrima com a enxada, uma das temíveis armas de Ceres. Cabo de guatambu. Tambu. Aço do bom. Meia-libra, uma libra, duas caras, colins, jacaré, tarza. Carrascal. carrapicho, picão, beldroega. Corpo a corpo, esquiva, parada, golpe à cara. Tulha cheia. Fartura.

Acerto, objetividade. - pecuário e enxadachim — duas palavras que pincelam com cores nobres o imenso painel da capital alto-paranaibana traçado por Geraldo Fonseca. Filho de lá, da Beira e rua da Lagoa, 47 anos de amor a Patos onde habitavam seus pais, Manoel Luiz Ferreira e dona Maria Bárbara de Jesus, ela parente chegada do tenente Bino. Felisbino José da Fonseca, um dos mentores do passado local.

Tipógrafo, jornalista com destacada atuação nos periódicas ‘Tribuna de Minas’. ‘Correio de Minas’, Revista ‘3 tempos’, ‘Diário de Minas’, ‘O Debate’, e colaborações em dezenas de jornais, diários e semanários de Minas. Rio e São Paulo. coordenou ainda as I, II e III Conferências de Jornalistas Mineiros; professor de artes gráficas, publicitário, crítico cinematográfico, é considerado o maior conhecedor do acervo do Arquivo Público Mineiro, onde, durante 28 anos, dedicou tempo de férias e folgas fortuitas ao levantamento do passado histórico de Patos de Minas. Viu, anotou e enfeixou em sua obra documentos que interessam a Araxá, Coromandel, Patrocínio. Paracatu e vizinhanças.

DOMÍNIOS DE PECUÁRIOS E ENXADACHINS, na planificação original em 1966, não previa a inclusão de documentos no texto Depois, o autor refez o trabalho Dividiu em partes. Indo para o final de cada uma a documentação básica dos assuntos tratados, o que garantiu a autenticidade insofismável da pesquisa. Além do que, possibilita a futuros interessados na história do Alto Paranaíba um documento da mais alta importância, que é o próprio repositório documental inserido em seu contexto.

O estudioso, mais do que o leitor sem compromisso, encontra aqui uma obra da mais alta importância sobre o passado de uma das regiões mais ricas de Minas Gerais. cujo vertiginoso progresso assombra o Brasil.

Curioso, o que aconteceu, no que respeita à história, com Patos de Minas. Parte essencialmente agropecuária, colonizada a duras penas por gente mais apegada aos eitos de plantação e ao tanger do gado, não teve fulgurâncias artísticas e intelectuais em seus primórdios, nem grandes senhores que podiam mecenar inteligências. Parte de seu passado era ignorado, carente de pesquisa demorada. Hoje, com a publicação deste trabalho, trilhas e caminhos da brilhante trajetória dos patenses estão abertos, de 1770 a 1974. (...)

Assim, a pesquisa histórica, tão desprezada, todavia tão fascinante, aqui está, bem elaborada, meticulosa e pacientemente, por um autêntico historiador.

De parabéns. Patos de Minas e seu passado histórico. -

E. TEIXEIRA”.

Em 1980, foi publicado no jornal patense, Folha Diocesana, do dia 27/3/1980, a seguinte nota:

“Geraldo Fonseca, mineiro de Patos de Minas, cuja posse no I.H.G.M.G. [Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais] aconteceu dia 15 p.p trabalha há 26 anos na imprensa belo-horizontina. Já atuou no serviço de Imprensa da Prefeitura de Belo Horizonte, chefiou o Serviço de jornalismo da Prefeitura de Ouro Preto, onde foi ainda Secretário do Turismo e Recreação. Naquela cidade, idealizou e coordenou os encontros de prefeitos das cidades históricas para a defesa do patrimônio histórico de Minas Gerais e de dirigentes municipais de turismo das cidades históricas e estâncias hidrominerais de Minas. À sua classe, prestou importante contribuição, coordenando encontros de jornalistas em Belo Horizonte, Governador Valadares e Uberlândia. Para seu ingresso no Instituto Histórico, foram de decisiva importância seus livros ‘Domínios de Pecuários e Enxadachins: História de Patos de Minas’, ‘Origens da Nova Força de Minas (História de Betim)’, e ‘Contagem perante a História’”. (Página 6)

Vinte anos depois da publicação de seu livro sobre Patos, em 1994, Geraldo Fonseca, aparecerá em um verbete do “Dicionário biográfico da Imprensa Mineira”, de autoria de Waldemar de Almeida Barbosa e André Carvalho:

“GERALDO José da FONSECA - Reg. 4210, nasceu 15.1.1927, Patos de Minas/MG. Imprensa Escrita: Folha de Patos (tipografo, 38); Jornal do Oeste-Divinópolis (redator redigia direto na caixa de tipos); Tribuna de Minas (repórter, crítico de cinema 50); O Debate (repórter 50/60); Correio de Minas; 3 Tempos (rep. 62); Diário de Minas (redator 65); Jornal de Casa (colunista); Rádio/TV: Rádio ZYD-4-Patos de Minas (discotecário). Livros: Domínio de pecuários e enxadachins (História de Patos de Minas) [1974]; Origem da Nova Força de Minas (História de Betim) [1975]; Contagem Perante a História [1978]; Futebol do Tempo Antigo de Minas Gerais.” (P.99).

Ressalto aqui mais uma vez, que não fiz uma pesquisa em arquivos ou outros livros além dos que os possuo aqui, apenas através da internet ou depoimentos por telefone colhidos junto a alguns amigos, sobretudo do Prof. Altamir Fernandes de Sousa, portanto, este escrito não procura esgotar esta questão que ainda permanecerá uma grande e profunda questão.

E além das citações de autores patenses sobre o seu livro, DOMÍNIOS DE PECUÁRIOS E ENXADACHINS (1974) ou dos outros dois, ou seja, ORIGEM DA NOVA FORÇA DE MINAS; BETIM – SUA HISTÓRIA: 1711-1975 (1975) e CONTAGEM PERANTE A HISTÓRIA (1978), encontrei somente mais uma referência explicita a estas obras no livro de Oiliam José, “Historiografia Mineira”, no capítulo “História Municipal.” (Páginas, 393, 395 e 404)

UM AUTODIDATA PATENSE HISTORIADOR?
Ora,: apenas três livros? Poderiam objetar os que ficam de plantão somente para isso, com ou sem pandemia. Sim, apenas três livros, “um trio parada dura” imprescindível para as aldeias que ele cantou... E o tanto que esse “Enxadachim” carpiu, colheu, perdeu colheitas, plantou de novo e que intempéries suportou em seus ombros? Que pragas e ervas daninhas teve de extirpar e expulsar de seu milharal de seus sonhos patenses. Três livros. E o resto?

O primeiro, para mim o mais importante, foi sobre nós, e que tem um longo nome: DOMÍNIOS DE PECUÁRIOS E ENXADACHINS; História de Patos de Minas.

Primeiro livro de Geraldo Fonseca – 1974
Foto: José Eduardo de Oliveira
E uma História que alguém precisa contar direito ou mais detalhadamente é sobre a edição desse livro. Irei apenas traçar um tosco rascunho, para iniciar darei voz ao próprio autor que em uma nota que antecede à sua Introdução, ele mesmo narra um pouco do que aconteceu, em resumo foi:

“O autor julgou necessária a explicação que dá a seguir. Ao mesmo tempo esclarece que, em tempo algum de 1945 a 1973, solicitou ajuda municipal para a sua pesquisa.

Coletado a documentação, fizemos uma redação parcial da obra em 1968. Antes, por oficio n. 35/65. a Câmara Municipal distinguia o autor com um convite, baseado em requerimento de 22 de fevereiro de 1965, de autoria do vereador José Maria Vaz Borges, para proferir uma conferência sobre a história do Fatos de Minas. Motivos imperiosos impediram a aquiescência ao honroso convite.

A 24 de março de 1965, o dr Zama Maciel escrevia ao autor: ‘Em maio, por ocasião da Festa do Milho, haverá um ciclo de conferências sobre Patos. Posso incluir o seu nome entre os conferencistas?’” Entretanto, “... os dirigentes da festa do Milho haviam posto dificuldades para e inclusão da projetada conferência no programa.

No ano seguinte, em Belo Horizonte, José Caixeta Frazão renovou o convite, e a 25 de maio de 1966, no auditório da ZYB-4, ensejou-nos discorrer sobre s história patense. Naquele dia, extraoficialmente, foi-nos pedida a redação do trabalho, para publicação pela municipalidade, o qual ficou terminado em 1968. Mudada a administração municipal, não voltamos ao assunto.

Era setembro de 1973, em contato com o dr. Dácio Pereira da Fonseca, o mesmo buscou saber a situação da pesquisa, afirmando que o prefeito Waldemar Rocha Filho apoiaria sua edição - depois de analisá-la - caso a mesma fosse de interesse para o ensino em Patos de Minas.

Após uma explanação ampla no gabinete do executivo municipal, presentes vários legisladores, os originais ainda na redação parcial de 1968 foram examinados, em setembro de 1973 a maio de 1974 dedicamo-nos à sua atualização. (...)

A 8 de fevereiro de 1974 o prefeito Waldemar Rocha Filho enviou à Câmara Municipal a mensagem n. 6/74, pedindo abertura de crédito especial para cobrir as despesas da edição e sua aquisição pela municipalidade, num total de 2 mil exemplares. O projeto foi aprovado, respectivamente, em 1ª., 2ª. e 3ª. . discussões. (...)

A todos quantos souberam compreender o valor deste trabalho, em particular aos senhores dr. Waldemar Rocha Filho e a Ilustre Câmara Municipal, dr. Dácio Pereira da Fonseca, dr. Mário Garcia Rosa, professoras, Theolina Vilela e Angela Mourão, ao jornalista José Maria Vaz Borges, os nossos agradecimentos.”

Infelizmente ou felizmente, 90% das Histórias municipais são editadas sob a chancela dos poderes públicos municipais, aqui ou em qualquer cidade brasileira. Desta feita, o livro encomendado em 1966, na gestão do prefeito Pedro Pereira dos Santos (1963-1967), não foi aprovado em 1968, na administração de Ataides de Deus Vieira (1967-1970), nem na gestão de Sebastião Silvério de Faria (1971-1972), e sim em 1974, na administração de Waldemar da Rocha Filho (1973-1976). [Estas datas são as que constam no livro de Fonseca] Nesta gestão, quem incentivou e muito, a publicação do livro foi Dácio Pereira da Fonseca que era o Diretor do Departamento de Educação e Cultura, o que seria hoje, Secretário Municipal de Educação, que, aliás, seria o próximo Prefeito Municipal (1977-1982). Paradoxalmente, a primeira História de Patos de Minas não foi publicada por um patense...

Mas vamos aos fatos, os velhos e saudáveis fatos oficiais sobre a publicação do livro:

“Projeto de Lei nº 6/74

Autoriza a abertura de Crédito especial, para cobrir as despesas com a primeira edição do Livro “História de Patos de Minas”, de Geraldo Fonseca e dá outras providências.

A Câmara Municipal de Patos de Minas decreta:

Art. 1º - Fica o Sr. Prefeito Municipal autorizado a abrir crédito especial, na importância de Cr$50.000,00 (cinquenta mil cruzeiros), que se destinará:

I – a custear a edição do livro “História de Patos de Minas”, de autoria de Geraldo Fonseca.

II – A adquirir do referido autor os direitos sobre a primeira edição, constituída de 2.000 (dois mil exemplares).

Art. 2º - Para acorrer às despesas decorrentes da execução desta Lei, fica o Chefe do Executivo autorizado a anular total ou parcialmente dotações do vigente orçamento.

Prefeitura Municipal de Patos de minas, 8 de fevereiro de 1974

Waldemar Rocha Filho
Prefeito Municipal
Ricardo Rodrigues Marques
Diretor do Departamento Administrativo” ...

“O projeto foi aprovado em 1ª discussão 22/2/1974; em segunda, em 28/2/1974 e aprovado em terceira discussão e encaminhado à sanção em 4/3/1974.

Justificativa (Mensagem)

Mensagem nº 6/74

Excelentíssimo Senhor Presidente

Apesar da existência de obras sobre a História de Patos de Minas, muita coisa há ainda por revelar e de urgente necessidade de ser editado como registro para a posteridade.

Da história de Patos de Minas ainda existem muitas testemunhas oculares, documentos e fotografias que podem se perder se o poder público não se interessar pela sua guarda e divulgação.

O livro escrito pelo jornalista Geraldo Fonseca, fruto de pesquisas feitas ao correr de mais de vinte anos, preenche esta lacuna, não só relatando os fatos de nossa história, mas procurando também interpretá-los à luz da realidade da época – em que se deram. Geraldo Fonseca em sua ‘História de Patos de Minas’ é mais um historiador do que um historiógrafo, fazendo com que o seu livro adquira um interesse regional, quando vai - além do patrimônio doado por Silva Guerra, semente de nossa cidade e reproduz o texto da sesmaria da qual o nosso Município viria a surgir.

A Edição da ‘História de Patos de Minas’ que ora se pretende foge um pouco à parcimônia de outras edições. A ilustração necessária ao texto encarece a obra, mas a enriqueceu – em seu conteúdo. Esta edição também se difere de outras subvencionadas pela Prefeitura de Patos de Minas. Todos os livros serão da Prefeitura, para serem vendidos e com esta renda ser possível a edição de outras obras de interesse de nossa comuna. Ao autor não se reservará a metade da edição como geralmente se faz, mas lhe será paga uma importância, a título de remuneração pelos direitos autorais desta edição, ficando o poder público municipal desembaraçado para vender os volumes que julgar conveniente.

Prefeitura Municipal de Patos de Minas, 8 de fevereiro de 1974
Waldemar rocha Filho
Prefeito Municipal.”

Muito bem. O autor cheirou muito mofo não só do Arquivo Público Mineiro e de inúmeros outros de cidades centenárias, documentos centenários, queimou as pestanas, perdeu noites de sono, deixou de fazer muita farra, - sabia que os historiadores, os normais, adoram uma farra?- de 1945 a 1973, coletando os fatos, selecionando-os, ordenando-os – matando de ojeriza os arautos da nova Escola dos Annales que não davam importância só aos fatos e documentos -, e depois de 1968 a até 1974, ou seja, 6 anos de gestação para ver o livro publicado. Um pouco mais tarde, em 1978, Silvio Gabriel Diniz prefaciando o terceiro livro de Geraldo Fonseca, CONTAGEM PERANTE A HISTÓRIA, escreveu: “Sua terra natal - a prodigiosa Patos de Minas -mereceu-lhe cerca de 28 anos dedicados à pesquisa de sua História, que enfeixou num livro de mais de 300 páginas sob o belíssimo título - DOMÍNIOS DE PECUARIOS E ENXADACHINS. Não é obra de a gente ler numa assentada. Ao contrário, é obra de consulta e estudo. Tal o amor voltado a sua Patos de Minas, não teve paciência de escrever sua História, entendida esta como trabalho de síntese. Não resistiu à tentação de publicar tudo o que desentranhou dos códices nos longos anos de busca. Agiu bem e produziu obra meritória, que tornará fácil a tarefa daquele que se dispuser a escrever a História-síntese de Patos de Minas.”

Mas o que importa é que no dia 24 de maio de 1974, no apogeu da Festa Nacional do Milho, o livro foi lançado. E como foi dito, o livro trazia muitas novidades, além de preciosos documentos inéditos, se não do seu conteúdo, mas em sua íntegra, sobre a municipalidade e região. E todos os documentos são precedidos de uma explicação e contextualização histórica. E mais, uma importante parte intitulada “Iconografia” onde o autor nos apresenta de forma original 79 ilustrações de fotos e documentos. E 344 páginas, um precioso Vade mecum, para curiosos, amantes da História patense e pesquisadores. Para estes últimos, imprescindível.

Geraldo Fonseca e sua esposa, Diva Rosa Alves, no lançamento do livro
DOMÍNIOS DE PECUÁRIOS E ENXADACHINS - 24/05/1974
Prefeitura Municipal de Patos de Minas – antigo Palácio dos Cristais - translúcidos
Foto cedida por Altamir Fernandes de Sousa.
Enquanto isso, e desde sempre, Geraldo Fonseca, mesclou sua faina de pesquisador meticuloso e incansável, com a que era o seu ganha pão, o jornalismo. Onde foi de tudo, de tipógrafo, foca, a redator, repórter, colunista e editor de reportagens especiais como em breve demonstraremos.

O segundo livro que Geraldo Fonseca lançou foi, ORIGEM DA NOVA FORÇA DE MINAS; BETIM - SUA HISTÓRIA: 1711-1975, chancelado pela Prefeitura Municipal de Betim-MG., em 1975.

Neste novo livro, Fonseca irá seguir o mesmo modelo gráfico da História de Patos de Minas, trás documentos ou na íntegra ou excertos com suas devidas contextualização e explicações e ao final, um álbum iconográfico extremamente relevante. Entretanto, se no livro sobre os Patos, exceto pela Carta de Sesmaria, que é de 1770, todos os outros documentos são do século XIX ou posteriores, nessa História de Betim, pode-se dizer que cerca de um quinto dos documentos não do século XVIII e os outros dos séculos XIX e XX, e o recorte histórico é bem maior e complexo, de 1711 a 1975. Sem contar suas 400 páginas.

E ressalte-se que o prefácio foi escrito pelo grande, Waldemar de Almeida Barbosa (1907-2000), quer dizer, um dos maiores historiadores que se aventuram em pesquisar sobre a História de Minas, são tantos, podemos arriscar uma lista em ordem temporal, mas qual o maior? Diogo de Vasconcellos (1843-1927), Augusto de Lima Júnior (1889-1970) ou João Camillo de Oliveira Torres (1915-1973)?

E assim, no prefácio, Waldemar de Almeida Barbosa nos apresenta o livro de Geraldo Fonseca: “Se um dia se escrever a história das nossas memórias municipais, será ela dividida em duas etapas distintas: na primeira, teremos mais estória do que história, pois foram escritas com base em coleta de tradições, ou de pseudolendas criadas para explicar certas denominações locais, enfim, livros alicerçados no diz-que-diz, no ‘consta’, ou no ‘contam que’.
Modernamente, porém, começa a surgir a pesquisa nos arquivos, e as lendas e os ‘consta’ e os ‘contam que’ vão sendo abolidos da verdadeira História, que está surgindo pura, firmada em bases documentais. ‘ORIGENS DA NOVA FORÇA DE MINAS: BETIM, SUA HISTÓRIA: 1711/1975’, de Geraldo Fonseca, é um exemplo típico da tendência atual de se escrever a História, com base nos documentos.”

Segundo livro de Geraldo Fonseca – 1975
Foto: José Eduardo de Oliveira
O terceiro livro de Fonseca foi, CONTAGEM PERANTE A HISTÓRIA de 1978. E nele também, o autor volta com a mesma estrutura editorial e projeto gráfico, do seu primeiro livro, ou seja, com narrativas e descrições da história local, documentos na íntegra ou excertos e copiosa documentação iconográfica ao final.

E como no livro da História de Betim, o recorte temporal sobre a História “da Contagem das Abóboras”, foi bem extenso, de 1716 a 1978, e mais volumoso, com 508 páginas.

O livro foi prefaciado pelo ilustre Silvio Gabriel Diniz (1917-1987), também membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e autor de livros sobre a História de Pitangui e outras obras:

“Há muitos anos frequentador assíduo dos arquivos históricos, com ânimo percuciente e senso analítico tem acumulado um acervo valiosíssimo relativo aos municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Já se nos ensejou vez de tecer comentários sobre a personalidade do historiador Geraldo Fonseca. Pedimos vênia para reproduzir nesta oportunidade excertos de nossa fala no lançamento do seu segundo livro de História, ‘Origens da Nova Força de Minas’, história de Betim.

Na mansuetude do Arquivo Público Mineiro, fizemos primeiro contato nos idos de 1962. Tornamo-nos companheiros de História. E o nosso companheirismo cresceu, aumentou e firmou-se no correr dos anos.

Desde o primeiro instante, impressionou-nos a sua objetividade de pesquisador, ao par de sua acuidade mental.

Naquele ano, Geraldo Fonseca desenvolveu profícua atividade na Revista ‘3 Tempos’. O jornalista e o historiógrafo fundiram-se e confundiram-se nas atividades quotidianas e profissionais. Nos números 26, 27e 29 da mencionada Revista, publicou momentosa reportagem sobre o tema ‘ALEIJADINHO É UM MITO’, tema este ingloriamente levantado pelo inolvidável historiador Augusto de Lima Júnior. Unindo a tarimba de jornalista com o senso de pesquisador de História mineira, sem provocar combates de sangue, soube conduzir a polêmica e delucidar o problema à “luz da verdade”. Abaixo, voltaremos a essa revista e essa reportagem.

Terceito livro de Geraldo Fonseca – 1978
Foto: José Eduardo de Oliveira
Neste livro, existe uma pequena nota, sobre dois livros inéditos de Geraldo Fonseca: “HISTÓRIA DA ELETRICIDADE EM MINAS GERAIS” e “FOOT-BALL NO TEMPO ANTIGO EM MINAS Gerais (História do futebol em Minas Gerais, desde sua introdução até o profissionalismo em 1933)”. Entretanto, não foi possível, localizar estas obras ou saber se elas foram realmente editadas.

UM AUTODIDATA PATENSE JORNALISTA?
Como já foi afirmado aqui várias vezes, Geraldo Fonseca, começou sua profícua carreira de homem de letras no jornalismo. Inicialmente aqui em Patos, depois Divinópolis e Belo Horizonte.

Antes de prosseguir, uma ressalva. Sempre as ressalvas.

Seria impossível para mim, neste artigo que, aliás, já se estendeu demais, arrolar todos os jornais, revistas e outras publicações onde Geraldo Fonseca deixou suas ideias e seus escritos. Portanto, farei apenas um bosquejo, uma amostragem.

O verbete do “Dicionário Biográfico da Imprensa Mineira”, nos diz que Geraldo Fonseca depois que trabalhou na “Folha de Patos”, trabalhou no “Jornal do Oeste” de Divinópolis, mas não nos diz a data. Entretanto, em 1951, ele com apenas 24 anos, já assina reportagem de capa deste jornal no dia 5 de maio. E na página dois já aparece como crítico de cinema discorrendo sobre o cineasta mineiro Alberto Cavalcanti. E anteriormente, no dia 2 de fevereiro ele já como cronista desse mesmo jornal assina a coluna, “Crônica da Cidade.”

Com 24 anos e autodidata, já assinava matéria de capa do Jornal do Oeste - 1951.

Dois anos depois, em 1953, ele assina a coluna “Luzes da tela”, do dia 27 de dezembro, como crítico de cinema, no “Jornal Tribuna de Minas” de Belo Horizonte.

Crítico de Cinema no Tribuna de Minas - 1953
Nesta década e nas décadas seguintes, trabalharia também nos jornais, o Debate, no Correio de Minas, na Revista 3 Tempos, no Diário de Minas e no Jornal de Casa, além de Rádio e TV, sempre em Belo Horizonte. E claro, escrevendo seus livros.

Nesta época residi em Belo Horizonte de 1965 a 1982 e me recordo de muitos desses jornais e publicações. E por incrível que possa parecer, fui leitor de Geraldo Fonseca sem ter a mínima ideia de quem era aquele profissional da imprensa. E, de 1982 a 1986, fui aluno do Curso de História da Universidade Federal de Ouro Preto e lá também tive contato com as matérias desse jornalista sem nunca imaginar que ele era meu conterrâneo.

E dentro de um de meus livros, ao acaso me deparei com uma extensa matéria de uma página inteira do “Jornal de Casa”, datado de 14 a 20 de dezembro de 1986, “Aarão Reis, pai de Beagá, ilustre esquecido.”, onde, dá uma verdadeira aula não só sobre o engenheiro responsável pela construção da nova capital Belo Horizonte, mas sobre a construção daquela cidade. Um fato curioso que eu me lembro, é que este jornal era semanal e era distribuído gratuitamente aos domingos, mas somente na região central e digamos assim nobre de BH. Minha irmã morava no Santo Antônio, assim devo ter capturado este jornal lá e achei tão interessante que guardei esta matéria e outra em que Geraldo Fonseca aparece.

Reportagem de Fonseca no Jornal de Casa
que era distribuído de graça aos domingos.
Foto: José Eduardo de Oliveira
UM AUTODIDATA PATENSE CRÍTICO DE CINEMA?
Vimos, que desde que começou sua carreira como jornalista Geraldo Fonseca tornou-se crítico de cinema.

Entretanto, não ficou apenas como crítico com artigos em jornais e avançou tornando-se juntamente com outros críticos e intelectuais belorizontinos um importante cineclubista.

Os cineclubistas foram grupos de amantes do cinema que fundavam cineclubes, ou seja, espaços, que fossem uma loja, uma sala, enfim um lugar em que se exibiam filmes que ficaram fora circuito comercial e ou banidos pela censura. E eram também espaços de discussões estéticas e políticas, inclusive com lançamentos de livros, jornais e revistas. Aliás, eles sempre existiram em todo o mundo, mas em determinadas épocas eles eclodiram com mais intensidade, e em BH eles também brotaram vigorosamente, e o epicentro desses cinéfilos era a Rua da Bahia, o Edifício San Remo, o Edifício Maletta e obviamente aqueles bares da região. Ah! Aqueles bares do Maletta...

Posteriormente, estes espaços foram desparecendo aos poucos e outros surgiram e apesar de acontecerem em cinemas de verdade, como o cine Roxy, no Barro Preto; cine Pathé, na Savassi e tantos outros, os filmes exibidos continuaram polêmicos. Desses últimos eu me recordo.

Só para ressaltar, Geraldo Fonseca aparece em inúmeras citações de pesquisadores dos cineclubes mineiros, mencionarei duas.

A primeira delas faz a seguinte citação, e é exatamente sobre as publicações dos cineclubes, “E, como era de se esperar, os sub-produtos de sua atividade não demoraram a aparecer, alguns deles se tornando no mínimo tão famosos quanto ao próprio CEC. O primeiro deles foi a “Revista de Cinema”, cujo número inicial surgiu em abril de 1954, logo propondo capitaneada pelo diretor Cyro Siqueira, uma importante discussão que defendia a revisão do método crítico. Em seus 25 números da primeira fase e mais quatro, num segundo momento, a “Revista de Cinema”, se impôs nacionalmente (e mesmo fora do país), influenciando decisivamente os primeiros passos da carreira de Glauber Rocha, que mais tarde desceria da Bahia até Belo Horizonte, na esperança de desenvolver na cidade um polo de produção cinematográfica. Além de Cyro, Jaques do Prado Brandão, Guy de Almeida, José Roberto Duque de Novaes e Newton Silva ocuparam cargos de direção na primeira fase da revista. Com ela, passou a competir a “Revista de Cultura Cinematográfica - RCC”, edita da pela UPC - União de Propagandistas Católicos, que teve vida mais longa que a da “Revista de Cinema”, mas nem por isto obteve a mesma repercussão. Foi dirigida por Geraldo Fonseca, Elísio Valverde, Argemiro Ferreira e José Alberto da Fonseca. Fato inédito: em determinado momento dos anos 50, Belo Horizonte era a única cidade do Brasil a ter, não uma, mas duas publicações especializadas em cinema.” (GOMES, 1997, p. 365-6). (grifo meu).

A segunda delas cita o seguinte trecho extraído do artigo de Geraldo Fonseca, Há um cinema nacional? Revista de Cultura Cinematográfica. Belo Horizonte, p. 38-41, n. 1, jul./ago. 1957. (LUCAS, 2011, p. 235, 247): “Nos suplementos e revistas especializadas, a tendência era seguir a linha de crítica e questionamento. Havia, também, casos flagrantes de omissão, como na Revista de Cinema, que durante todo o debate sobre a revisão do método crítico e nos balanços anuais dos filmes exibidos em Belo Horizonte não fez uma única menção ao cinema brasileiro. Na Revista de Cultura Cinematográfica, também mineira e originada do CEC (Centro de Estudos Cinematográficos), a atitude era diversa. Editada com o apoio da União dos Propagandistas Católicos (UPC), dedicou-se desde seu primeiro número a debater e informar sobre o cinema nacional...”.

Imagine-se, desde 1950 escrevendo sobre cinema, quantos artigos não produziu?

UM AUTODIDATA PATENSE ESTUDIOSO DO ALEIJADINHO?
E para encerrar, farei dois ou três comentários sobre o nosso conterrâneo, Geraldo Fonseca e a sua relação com o ouro-pretano, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1930? 1738? -1814).

Todo mineiro, já ouviu falar e até em algum momento de sua vida escolar estudou sobre o escultor e arquiteto mineiro apelidado de Aleijadinho, ou mesmo visitou algumas cidades onde se encontram suas principais obras, como Ouro Preto, Congonhas, Sabará etc. Sem contar as infinitas polêmicas sobre sua vida e suas obras, além de centenas de livros e artigos já publicados.

Para se ter uma pequena ideia dessa literatura, “Em 1939, Judite Martins publicou na Revista do SPHAN, os ‘Apontamentos para a bibliografia de Antônio Francisco Lisboa’, onde arrola 100 referências bibliográficas (livros e artigos) sobre o Aleijadinho. Sendo três delas específicas sobre suas doenças. Em 1970, Hélio Gravatá publicou na revista BARROCO 2, a ‘Bibliografia sobre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho’, onde arrola 1.140 referências bibliográficas (livros, artigos, etc.) sobre o Aleijadinho. Em 1971, sobe para 1.177. Sendo 34 delas específicas sobre suas doenças. E hoje, 50 anos depois?” (Ver: https://www.jornaldepatos.com.br/2020/07/aleijadinho-de-novo.html).

E uma dessas 1.140 citações da “Revista Barroco 2” de 1970, refere-se exatamente a uma polêmica reportagem do nosso Geraldo Fonseca, que em 1962, entrevistou o mais polêmico ainda o mineiro, Augusto de Lima Júnior em 1962. Eis o teor da citação:

“FONSECA, Geraldo. História e não estória, diz o historiador Augusto de Lima Junior, afirmando que o Aleijadinho é um mito. ‘Nunca existiu o Aleijadinho de que falam os livros’ - afirma Augusto de Lima Junior. - O mistério Aleijadinho. Pesquisadores dos arquivos de Minas desconhecem a existência de um documento insofismável sobre o aleijão de Antônio Francisco Lisboa. - Opiniões dos pesquisadores Alfredo Marcelino Cao e Silvio Gabriel Diniz. - Repercutem no Brasil, em Paris e Londres as afirmações do professor Augusto de Lima Junior, que pôs em duvida toda a bibliografia sobre o Aleijadinho, dizendo que ele não era mulato nem aleijado - Aleijadinho não é mito. Documentos desenterrados nos museus de Ouro Preto comprovam a existência de um Antônio Francisco Lisboa mulato e aleijado, mas não era pobre nem doente. - Orlandino Seitas: ‘O trabalho de Ferreira Bretas é digno de crédito, em que pese muita coisa fantasiosa e de ‘por ouvir dizer’ existente no mesmo. - ‘Intensa repercussão obteve a entrevista do historiador Augusto de Lima Junior á revista 3 Tempos, afirmando que o Aleijadinho foi um mito. O ousado historiador recebeu uma carta do King College de Londres, felicitando-o pela sensacional entrevista, enquanto o prof. Germain Bazin, ex-diretor do Museu de Arte de São Paulo, critico de arte na França suspendeu a publicação de um livro sobre o Aleijadinho, alarmado com as impressionantes declarações do Liminha. Aqui, em Minas, as professoras de Nova Lima convidaram Lima Junior para um debate em torno do Aleijadinho’. In: 3 Tempos. Belo Horizonte, ano 1, ns. 26, 27 e 29, 13 e 23 ago.; 16 set. 1962.” (GRAVATÁ, 1970, P. 89).

Essa mesma entrevista, que Augusto de Lima Júnior concedeu a Geraldo Fonseca na “Revista 3 Tempos” fez e ainda faz história, e o que era para ser apenas um trabalho fortuito de jornalismo, jogou nosso conterrâneo no furacão das controvérsias em torno do Aleijadinho. Ficarei aqui com apenas mais uma amostragem que cita o artigo. São muitas.

Foi uma citação do francês Germain Bazin (1901-1990), um importante crítico e historiador da arte inclusive brasileira, que em 1956 já havia lançado o livro, “A arquitetura religiosa Barroca no Brasil”, traduzido aqui somente em 1983, onde já discorre sobre o Aleijadinho. Mas a obra em questão onde cita Fonseca é, “O Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil”, lançado em 1963 e traduzido aqui em 1971.

Um dos mais importantes livros sobre o Aleijadinho - 1963
Segundo Germain Bazin, “Nos últimos trinta anos, o Aleijadinho suscitou no Brasil polêmicas ardentes e estas estão longe de se acalmarem. (...) No entanto, é o que acaba de acontecer, e por um homem que, anteriormente, havia contribuído, mais que outro para louvá-lo: o Sr. Augusto de Lima Júnior. No mesmo instante em que esse livro ia ser entregue ao prelo, ele teve a cortesia de me enviar dois artigos de jornal que tornava pública essa sua opinião. (...)” Na entrevista, Lima Júnior, afirma que “... nunca existiu artista mulato e doente levando o nome de Antônio Francisco Lisboa; as obras que lhe são atribuídas não são dele, mas de diversos empreiteiros...” E cita em pé de página - a matéria do patense, “ ‘História e não Estória’, diz o historiador Augusto de Lima Júnior afirmando: Aleijadinho é um mito, reportagem de Geraldo Fonseca na Revista 3 Tempos, de Belo Horizonte, Ano 1, n. 26, 13 de agosto de 1962.” (BAZIN, 1963, P. 108-9) (grifo meu). E um detalhe, há anos procuro esta matéria da Revista 3 Tempos... e neca.

Ainda sobre o Aleijadinho, Geraldo Fonseca ainda daria no mínimo outra valiosa contribuição.

Em agosto de 1981, assinalando os “250 anos de nascimento de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (...) Aliando-se a iniciativa governamental, o DIÁRIO DE MINAS marca sua participação no evento e assinala com uma publicação de valioso conteúdo (...) Esta edição, coordenada por Geraldo Fonseca, jornalista e historiador...” (Diário de Minas, 1981, p. 3) (grifo meu). Essa reportagem leva em consideração a data de 1730 como sendo a do ano de nascimento de Aleijadinho. Entretanto, em um dos textos da publicação, provavelmente de Fonseca, é destacada esta questão: “Uma das preocupações maiores dos muitos autores que, posteriormente, se dedicaram a pesquisas sobre o Aleijadinho tem sido corroborar ou desmentir o retroagimento da data natalícia do artista, de 1738 para 1730.” (p. 17)

Sim, Geraldo Fonseca foi o Editor desse caderno especial de 30 páginas, que adquiri em 1981 e guardei comigo, não por causa do editor, que não conhecia e nem imaginava que era patense, guardei porque foi um documento que além de ricamente ilustrado foi interessante e importante. E que com exceção de uma matéria, todos os outros artigos não são assinados, e o que se depreende, sem medo de errar é que os outros, quase uma dezena de títulos saíram da pena do patense.

Caderno Especial lavrado em sua maturidade profissional
Foto: José Eduardo de Oliveira
E deixo as questões: o autodidata patense, foi jornalista? historiador? crítico de cinema? estudioso do aleijadinho?

Assim, como em sua matéria sobre o construtor de Belo Horizonte, Aarão Reis, um “ilustre esquecido”, Geraldo Fonseca é quase um anônimo. Sequer se dispuseram a dar-lhe um nome de uma rua, uma praça, quiçá de um beco, dessa cidade que ele cantou e amou tanto. Musa ingrata! Talvez ele nem quisesse, mas que esse “Enxadaxim” das Letras merecia, merecia...

Em tempo: meus agradecimentos especiais pelas informações e documentos fornecidos por Dácio Pereira da Fonseca e Altamir Fernandes de Sousa.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

BARBOSA, Waldemar de Almeida; CARVALHO, André. Dicionário biográfico da Imprensa Mineira. Belo Horizonte: Armazém de Ideias Ltda., 1994.

BAZIN, Germain. O Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1971. (Ed. Francesa 1963)

FONSECA Geraldo. Contagem Perante a História. Contagem: Prefeitura Municipal de Contagem, 1978.

FONSECA Geraldo. Domínios de Pecuários e Enxadachins; História de Patos de Minas. Belo Horizonte: INGRABRÁS, 1974.

FONSECA Geraldo.  Origem da Nova Força de Minas; Betim – sua História: 1711-1975. Betim: Prefeitura Municipal, 1975.

GOMES, Paulo Augusto. 100 anos de cinema em Belo Horizonte. In: Varia História, n. 18, Set/ 97, p. 365-6.

GRAVATÁ, Hélio. Bibliografia sobre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. In: Barroco 2. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 1970. p. 89. (Lançado no IV Festival de Inverno de Ouro Preto, 23 de Julho de 1970).

JOSÉ, Oíliam. Historiografia mineira. 2. ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987. P. 393, 395, 404.

LUCAS, Meize Regina Lucena. Por amor ao Cinema: história, crônica e memória na invenção de um certo olhar. In: Projeto História, n. 43, Dez/2011, p. 235, 247.

JORNAIS

Diário de Minas, 1981.
Folha Diocesana, 1980.
Jornal de Casa, 1986.
Jornal do Oeste, 1951.
Tribuna de Minas, 1953.

José Eduardo de Oliveira é licenciado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto. É autor de três livros, sendo o último "Bento Rodrigues: Trajetória e Tragédia de Um Distrito do Ouro", lançado em 2018.

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2 Comentários

  1. quando o passado é esquecido, soterrado, escondido, o historiador escava. (por isso ele nunca é bem visto). Quando alguém que escavou o passado é esquecido no anonimato, um historiador também escava, e faz justiça em honra da vocação obstinada. Muito bom!

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  2. Caro Amigo, como escreveu Eric Hobsbawm (1917-2012) em a ERA DOS EXTREMOS, “A destruição do passado ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas - é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que outros esquecem, tomam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milênio. Por esse mesmo motivo, porém, eles têm de ser mais que simples cronistas, memorialistas e compiladores.” (P. 13) Mesmo que o passado, nos apresente apenas escombros assustadores causados pela tempestade do progresso, como nos mostra o anjo de Paul Klee de que nos fala Walter Benjamim (1892-1940), em suas TESES SOBRE A HISTORIA, é inelutável afastar-se dele. E Lucien Febvre (1878-1956), em seu texto, FRENTE AO VENTO, nos admoesta, sobre ser Historiador: “Só é digno desse belo nome aquele que se lança totalmente na vida, com o sentimento de que ao mergulhar nela, ao penetrar-se de humanidade presente, decuplica as suas forças de investigação, os seus poderes de ressurreição do passado. De um passado que detém e que, em troca, lhe restitui o sentido secreto dos destinos humanos.”

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