Por Teófilo Arvelos
Fechei a porta tão fortemente
quanto quando o vento bate.
Gente, mas que é isto?
A ansiedade me mastigando
sem me engolir.
Meu tio falecido me abraçando.
Uma criança subindo no pé de caju.
São as memórias… várias.
Assomam e se vão como moscas.
Alguém perturbado como eu,
alguém com sono como eu,
alguém estranho como eu
pode não ter nada além,
mas ainda as tem:
as intrusas, as babacas,
as ladras, as fragmentadas
memórias!…
Memórias são uns versos
dispostos sem estrofe.
Voam no livro não diagramado.
Onde estou? Onde estão?
Quero dormir para não pensar.
Quero dormir e dormir e dormir…
Quero… quero… quero…
Se o Lívio me entrevistar,
direi que estou lendo
Recordações da Casa dos Mortos.
Tia Carla me deu um livro.
Foi o primeiro livro que ganhei na vida.
Deixei que mofasse na estante
e me arrependo disso até hoje.
Emprestei um livro para um primo.
Meu primo não me devolveu o livro.
O que me enfurece é não me lembrar
de que livro lhe emprestei.
É incomodar-me não com a falta do livro,
mas com a não devolução do livro.
Primo meu, devolva-me o livro meu.
Ontem, hoje e amanhã…
Não sei o que vou fazer amanhã.
Vou pensar nisso quando acordar amanhã.
Quero dormir para não pensar em mais nada.
Quando pequeno, eu gostava de dinossauros.
Eu amava dinossauros.
Mas depois fui tendo pesadelos…
Sonhava com tiranossauros
tirando com a boca o telhado da casa,
sentindo o meu cheiro e me devorando.
Eu me escondia dos tiranossauros
debaixo da cama, nos sonhos.
Acordado, nunca gostei de ficar
debaixo da cama, porque lá
há poeira e teia de aranha.
Anteontem foi dia de Santa Águeda.
Que linda, a homilia do padre Maurino.
Eu não conhecia a história da santa.
Muito cruel, ter os peitos arrancados…
Não gosto de cicatrizes.
Que horas são?…
O povo da minha terra pergunta:
“Quantas horas?”
Quem é de fora acha estranho.
Também acho estranho.
Sempre me achei meio de fora,
mesmo depois de ter
me mudado para fora.
“Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
ainda que não more nela”:
eis uns dos poucos versos de “Tabacaria”
que sei de cor.
Por que é que, quando sonho
com a minha avó,
sempre sonho com a casa antiga dela?
Nunca sonho com a casa nova.
Não sei se a árvore que existia
na casa de um tio meu é pé de graviola
ou pé de fruta-do-conde.
Não sei qual é a diferença
e não sei se a árvore ainda existe.
Nas últimas vezes em que fui lá,
não me lembrei de olhar a árvore…
Talvez, estando longe, eu nunca antes
tinha me lembrado dela.
[Digitado das 23h19 às 23h32 no dia 7/2/2025.]
Teófilo Arvelos é autor de seis livros de poesia, publicados pelo Grupo Editorial Atlântico. Formado em Geografia pela Unicamp, atualmente faz mestrado na mesma área e instituição.
🦆
Apoie o jornalismo independente colaborando com doações mensais de a partir de R$5 no nosso financiamento coletivo do Catarse: http://catarse.me/jornaldepatos. Considere também doar qualquer quantia pelo PIX com a chave jornaldepatoscontato@gmail.com.

0 Comentários
Obrigado por comentar!