Por Gustavo Rubim
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| “O Escolar” 1888 — Vincent Van Gogh |
“A presença do silêncio não implica de forma alguma que não haja um que fale” — Jacques Lacan
Recostado confortavelmente na poltrona do consultório, o doutor remoía a memória do paciente com as mãos frágeis e entrelaçadas pousadas sobre o abdômen: Joaquim, o surdo-mudo. A mãe dissera, num primeiro encontro, que nenhuma abordagem acolhera o filho; um ou outro profissional dotado da linguagem de sinais, desses especialistas de casos específicos, até se prontificaram a receber o menino, mas passados dois ou três meses em que Joaquim não esboçara mais que o franzir do cenho, petrificado na poltrona vizinha a observar o nada, fora novamente expurgado para o colo materno.
O garoto mergulhava cada vez mais para dentro de si, num silêncio profundo e sepulcral. À noite, o rapazinho soltava gemidos de mau agouro, a mãe confusa, sem entender de que parte do pequeno corpo brotava a força daquele urro infantil, abraçava-o contra o peito, até sufocar a voz aguda e angustiada. Não encontrava solução para tudo aquilo, desejava em seu íntimo que a criança tivesse nascido-morta; quantas vezes tencionou sufocá-lo dentro dum sono profundo: “Seria melhor assim!”, suspirava. Ao afagar a cabeleira farta e loura de Joaquim, que recaia sobre a face inocente e suada do menino, logo recriminava o pensamento infanticida. Nesta hora, “a Mão-de-Deus” pesava sobre si.
Movida pelo desespero maternal, a mulher decidiu buscar um psicanalista, já que, segundo ouvira por aí, a abordagem freudiana poderia escutar o silêncio de seu filho e de quem quer que fosse. Achou num recorte de jornal nome e endereço do renomado Sr. G. R. Denisovich, profissional requisitado naquela currutela provinciana e, até mesmo, por gente vinda da Capital. À primeira vista, achou-o bastante débil comparado aos termos imperiosos com que era referido. Denisovich fez poucas perguntas à mãe que contou-lhe a missiva do filho numa prosa rápida e atropelada.
Confiante, a mulher decidira depositar toda a vã esperança na recuperação do filho naquele homem magro e taciturno; Joaquim, em princípio, também parecera um pouco desconfiado e adentrou o consultório quase sem mobília do Sr. Denisovich, pé ante pé. Na primeira sessão, não se sentaram, em toda a sua trajetória, o senil Denisovich nunca se deparara com tamanho silêncio advindo de um sujeito, ainda mais de porte tão pequeno. Ficaram ali frente a frente por cerca de uma hora, marcando o final da sessão com um leve gesto de cabeça em direção a porta.
...
Passados seis meses desses encontros de que nada sabia, a mãe continuava a levar o garoto. Joaquim não apresentava progressos, mas tampouco o psicanalista desistira do caso. Agora as sessões aconteciam cada um em sua poltrona, mergulhados cada um no próprio silêncio, Denisovich esperava daquela face pálida qualquer movimento, como se dali fosse arrancar palavras com os olhos. Até que um dia notou um ligeiro movimento no lábio inferir da criança, uma contração similar a um princípio de choro. Decidiu não forçar nada, aquele era seu primeiro logro e não podia colocar tudo a perder. Encerrou de imediato a sessão. No encontro seguinte, nada. Nem no outro. No outro, pensou ter ouvido um sussurro, algo com um “Ais”, fixou o olhar no garoto, seus olhos realmente gritavam de desespero, não conseguia compreender de fato o que queriam dizer.
Passado um ano, a mãe comentava com a vizinhança os progressos do garoto, disse que vira certa noite, o menino esboçar um sorriso largo enquanto dormia tranquilamente no leito. Jurou até, não poderia tratar-se de um engano, ouvir do quarto o chamado, “Mamaa”. Do outro lado, era estranho esses avanços para Denisovich, que desesperado buscava ouvir aquela alma. Certo de uma melhora declarada pela mãe, Denisovich somava a isso pequenos gestos do rapaz, que o psicanalista interpretava como uma súbita melhora. Começou a pensar numa obra a partir do caso clínico tido como irreversível; seu trabalho com Joaquim poderia contribuir para a evolução da psicanálise tão combatida neste e noutros tempos.
A cada sessão, Denisovich anotava os mínimos gestos da criança, criando assim um alfabeto próprio: dois piscares de olhos, eram um “Olá” de Joaquim; se contraia o cenho estava incomodado com algum pensamento; se flexionasse os joelhos era ora de interromper a sessão. Pensava assim construir um diálogo íntimo com o garoto, se afeiçora a ele e ansiava logo pela próxima sessão. Até que um dia Denisovich resolveu responder aos gestos do garoto com palavras saídas da boca. Foi um grande susto, Joaquim começou a berrar num pranto desesperado. Do lado de fora, a mãe passou a golpear a portar evocando o nome do filho. Denisovich tentou manter-se calmo, fixo nos olhos de Joaquim, até a criança interromper os soluços; entendera que era mesmo necessário preservar o silêncio, ou melhor, manter a boca fechada. Afinal, do que adianta falar? A alma de Joaquim comunicava-se por meio do silêncio, esse era o único canal para o médico.
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Certo dia, Joaquim trouxe-lhe um desenho, eram círculos e mais círculos abstratos rabiscados num papel sujo e amaçado. Denisovich recebeu o papel com ambas as mãos, como quem acolhe um animal ferido, marcado pela talha profunda da dor. Não perguntou o significado daqueles círculos; estendeu-o sobre a mesa de centro e permaneceu longamente a fitá-los com um par de olhos absorto. Havia naqueles rabiscos uma ordem que lhe escapava, um movimento contínuo, como se cada traço orbitasse outro invisível. Pela primeira vez em muitos anos de ofício, desconfiou que toda interpretação fosse uma forma de violência.
Nas semanas seguintes, os desenhos multiplicaram-se. Círculos maiores engoliam os menores, alguns rompiam-se numa abertura estreita, outros permaneciam fechados sobre si mesmos. Denisovich abandonou as anotações, deixou inacabado o livro que imaginara escrever — era inadmissível publicar uma derrota, um caso “inacabado” — e já não procurava traduzir Joaquim para a linguagem dos homens. Bastava-lhe sentar diante do garoto e, entre um silêncio e outro, reconhecer que havia mundos cuja única gramática consistia no vazio da palavra não dita; calar-se, junto, também cura, pensou atordoado.
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Quando Joaquim deixou de frequentar o consultório, porque a mãe julgara desnecessário prolongar o tratamento “ineficaz”, Denisovich guardou o último desenho na gaveta de sua escrivaninha onde outrora conservara seus escritos mais importantes. Anos depois, ao remexer velhos papéis, encontrou a folha já amarelada. Sorriu discretamente, um riso amarelo e triste. Percebera, enfim, que não fora ele quem devolvera uma voz ao menino; fora Joaquim quem lhe ensinara que nem toda alma deseja ser traduzida, tampouco escutada.
Gustavo Rubim desde 1999, jornalista.
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