Incêndio na Mata do Catingueiro: um reflexo do subdesenvolvimento

Por Esequias Caetano
Foto: Aislan Henrique
Fazem apenas alguns dias que acordamos com a triste notícia do incêndio na Mata do Catingueiro, em Patos de Minas. As imagens da queimada circulavam pelos grupos no Whatsapp, junto às diversas manifestações de indignação da população local. Entre as fotos divulgadas na internet, duas em especial me chamaram a atenção: a primeira, era uma cadela cheirando seus filhotinhos mortos pelo fogo e, a segunda, um macaquinho pulando uma cerca de arame farpado para fugir das chamas. Claro, imagens como estas são recortes minúsculos de uma situação muito mais complexa que, como qualquer outra questão envolvendo o Comportamento Humano, pode ser abordada a partir de diversas perspectivas.

Aqui mesmo, no Jornal de Patos, algumas publicações já trataram do assunto. Uma delas foi escrita pelo doutorando em relações internacionais Gustavo Lagares, que discutiu a relação entre desmatamento e aparição de novos vírus entre os humanos. No texto, Lagares alertou que 60% das doenças descobertas em humanos nos últimos anos tem origem em outros animais, especialmente animais selvagens.

Para quem desejar entender melhor como o processo funciona, recomendo o livro “Como Vírus e Pandemias Evoluem”, disponível gratuitamente no Kindle, de autoria do biólogo Pirula e do jornalista Reinado José Lopes.


Nossa conversa de hoje é sobre os porquês de isso acontecer. O que leva as pessoas a desmatarem e a caçarem animais silvestres a despeito de todo o movimento mundial de conscientização e defesa do meio-ambiente?

A primeira vista, podemos ter a impressão de que tudo está um caos e que estamos nos aproximando de um apocalipse ecológico mundial. É compreensível, uma vez que a atenção dos governos e da mídia à questão ambiental tem crescido consideravelmente nos últimos anos. Essa mudança reflete, é claro, uma maior preocupação com a conservação da fauna e da flora mundiais. Steven Pinker fala do assunto em seu livro “O Novo Iluminismo: em defesa da razão, da ciência e do humanismo”, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras.

A Conservação Ambiental no Mundo
Pinker é dos principais cientistas cognitivos do mundo e, há anos, vem se debruçando sobre o estudo dos processos comportamentais envolvidos na política. Em sua obra, apresenta dados de diversas pesquisas demonstrando uma série de avanços na conservação ambiental. Dentre eles, gostaria de destacar a crescente substituição das fontes de energia não renováveis (ex.: petróleo) por energia limpa (aquelas que não liberam poluentes) e renovável, como energia hidráulica, energia eólica, solar, entre outras. O pesquisador fala também sobre a redução significativa no desmatamento mundial, inclusive na Amazônia, que entre 2004 e 2013 caiu em quatro quintos (e voltou a crescer assustadoramente desde então). Também houve reduções consideráveis na quantidade de óleo derramada no mar, as taxas de extinção de aves caiu em 75%, as áreas de proteção ambiental terrestre passaram de 8,2% em 1990 para 14,8% em 2014 e as áreas protegidas nos oceanos mais que duplicaram no mesmo período. E existem muitos outros exemplos.

A Situação Brasileira
A preocupação crescente com a conservação ambiental tem criado uma cultura em que cada vez mais países e instituições condenam a exploração irresponsável e a destruição dos recursos naturais. Um exemplo disso é a ameaça da perda de mais de R$ 10,6 trilhões de investimentos no Brasil em resposta ao aumento no desmatamento no país, que em 2019 havia atingido o índice mais alto desde 2006 e nos primeiros meses de 2020 já havia crescido em mais 35%[1]. Diversos integrantes de governos europeus também têm criticado a política ambiental do governo brasileiro, classificando-a como “infantil” e ameaçando retaliações econômicas e comerciais caso a situação não mude[2].

Pode parecer estranho o desmatamento e a agressão ambiental estarem crescendo tanto em um país em que 91% da população diz desejar passar mais tempo em contato com a natureza e 59% acreditam que a proteção ao meio ambiente não represente um obstáculo ao desenvolvimento econômico[3]. E tudo isso em um momento em boa parte dos países do mundo fazem exatamente o contrário, tentam preservar o ambiente. Como explicar isso?

Steven Pinker, o cientista cognitivo acima mencionado, apresenta alguns dados que podem lançar luz à questão. Ele explica que a destruição ambiental está associada a problemas como (1) baixa evolução tecnológica e científica, (2) dificuldade de acesso a boas condições de existência e dignidade, como alimentação e moradia e (3) baixo nível educacional. Mas de que forma essas coisas influenciam a relação predatória do ser humano com a natureza?

Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente
A medida em que a tecnologia evolui, fica mais fácil utilizar os recursos ambientais de maneira inteligente. Como consequência disso, passamos a depender cada vez menos da exploração do ambiente. Como exemplos disso, Pinker cita o processo de transformação nas fontes de energia utilizadas pela humanidade: inicialmente a lenha de madeira foi utilizada; muito antes que a madeira acabasse, passamos para o carvão; muito antes que o carvão acabasse, passamos para o petróleo; muito anos do petróleo se esgotar, começamos a usar metano e estamos a caminho de substituir o metano por fontes de baixa ou nula emissão de carbono, como a eletricidade ou a luz solar. Quanto mais a ciência se desenvolve, mais rápido este processo irá acontecer.

Igualdade Social, Qualidade de Vida e Meio Ambiente
Pinker argumenta também que o acesso a boas condições de existência e dignidade contribuem com o processo porque à medida em que as necessidades básicas são satisfeitas, como alimentação, moradia e segurança, os valores das pessoas naturalmente ascendem na hierarquia de necessidades e o escopo daquilo com que se preocupam se expande no tempo e no espaço. Trocando em miúdos: é mais fácil se importar com o que acontece com a Mata do Catingueiro quando não se está com a mente tomada por preocupações sobre conseguir pagar o aluguel, colocar comida na mesa ou pagar as despesas básicas da casa. Quanto mais a desigualdade social for reduzida, mais capazes nos tornaremos de cuidar do meio ambiente.

Educação e Meio Ambiente
Por fim, o pesquisador apresenta dados que demonstram que os efeitos de uma educação de qualidade se estendem desde o óbvio até o surpreendente. Entre as mudanças que a educação promove, vale destacar a melhoria das capacidades práticas e econômicas de um povo, o fortalecimento da democracia e paz de uma nação, a redução dos níveis de violência, a melhora do respeito por culturas diferentes, a redução na crença em “messias salvadores” carismáticos e, consequentemente, a ampliação da capacidade de reconhecer a falta de lógica e amparo científico em ideologias que defendem que a exploração ambiental é necessária para o desenvolvimento econômico. Quanto mais investimento em educação houver, mais capazes seremos de compreender a realidade que nos cerca e pensar em saídas inteligentes para os problemas reais que enfrentamos.

Olhar para estas três dimensões em conjunto levanta questões políticas ainda mais profundas, complexas e cercadas de polêmica. Certamente elas merecem uma análise minuciosa, baseada em dados de pesquisa e no conhecimento acumulado até então. O cuidado de fundamentar o próprio ponto de vista em dados é importante especialmente diante da polarização política atual, que naturalmente gera vieses interpretativos que podem dificultar bastante a análise.

OUTROS MATERIAIS CONSULTADOS
[1] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/06/investidores-europeus-ameacam-desinvestir-no-brasil-devido-a-desmatamento.shtml

[2] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-49411975

[3] https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/06/07/Qual-a-aten%C3%A7%C3%A3o-que-o-brasileiro-d%C3%A1-para-a-pauta-ambiental

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