As ruas que moram em mim

 Por Jô Drumond

 

Há ruas que percorremos apenas por algum tempo e há outras que, sem percebermos, passam a morar dentro de nós. Podemos mudar de casa, de cidade, de idade; elas, porém, permanecem, guardando, nas esquinas, alguma coisa de nossos passos, de nossos espantos, de nossas descobertas.

As ruas de minha infância/juventude tinham nomes de homens ilustres. Naquele tempo, entretanto, pouco me importava saber quem haviam sido. Para mim, uma rua consistia simplesmente em caminho, vizinhança, curiosidades, brincadeiras de roda, serestas ao luar...  Era o lugar onde a vida acontecia.

Só muito mais tarde descobri que, enquanto eu caminhava por aquelas ruas, caminhava também, sem saber, por alguns capítulos da história do Brasil.

RUA DUQUE DE CAXIAS

Foi a primeira rua onde morei quando deixei a zona rural e me transferi para Patos de Minas. Saí da amplidão do campo para uma charmosa casa com alpendre e quintal — talvez uma espécie de transição afetuosa entre os dois mundos.

Eu não tinha a mínima ideia de quem havia sido Duque de Caxias. O nome, para mim, era apenas o nome da rua. Bem mais tarde, nos bancos escolares, soube que se chamava Luís Alves de Lima e Silva (1803–1880), militar que se tornaria patrono do Exército Brasileiro. Barão, conde, marquês e, finalmente, duque, destacou-se na pacificação de revoltas internas e na Guerra do Paraguai, tornando-se o único brasileiro a alcançar o título de duque durante o Império. Mas nada disso povoava a cabeça da menina que ali morava. Minha geografia era outra.

A rua era tranquila e agradável, porém um pouco distante do Grupo Escolar Marcolino de Barros, onde minhas irmãs e eu estudávamos. Por razões mais práticas que históricas, mudamo-nos para outra rua — e outro nome célebre entrou em minha vida sem pedir licença.

RUA SILVA GUERRA

Nota da autora: (Não foi encontrado nenhum registro imagético de Silva Guerra)

Morei ali durante alguns anos sem saber quem havia sido Antônio Joaquim da Silva Guerra, um dos nomes ligados às origens históricas de Patos de Minas. Em 1826, ele doou parte das terras da fazenda denominada “Os Patos” para a constituição de um patrimônio religioso dedicado a Santo Antônio. Ao redor da igreja, o pequeno povoado cresceu e, com o passar do tempo, transformou-se na cidade de Patos de Minas. Nada disso, porém, fazia parte das minhas preocupações de menina.

Na Rua Silva Guerra, meu pai instalou um estabelecimento de nome pomposo: BAR E RESTAURANTE PARA TODOS. Para todos, é verdade — menos para as filhas do proprietário. Nós, futuras “moçoilas casadoiras”, éramos expressamente proibidas de adentrar o recinto, a não ser quando estivesse fechado. E, como acontece desde que o mundo é mundo, bastou a proibição para que minha curiosidade se tornasse ainda maior.

O bar ficava na confluência de três ruas. Uma delas era a Rua Padre Brito que, apesar do nome piedoso, abrigava, nos anos 1950 e 1960, a boêmia e da zona de prostituição da cidade. Talvez por isso os olhos paternos vigiassem as filhas com tamanho zelo.

Eu, ainda criança, queria sobretudo compreender os mistérios daquele lugar. Em uma das laterais do estabelecimento havia três pequenos cômodos separados por biombos de madeira, mobiliados apenas com mesas e cadeiras. Eram os chamados “reservados”, Ninguém via o que acontecia lá dentro. E eu não conseguia imaginar para que serviam.

Talvez a infância termine um pouco assim: quando começamos a suspeitar que, atrás dos biombos do mundo adulto, existem coisas que ainda não nos é permitido compreender.

RUA MARECHAL FLORIANO


Estação ferroviária de Marechal Floriano – ES

Alguns anos depois, já na pré-adolescência, mudamo-nos para um amplo casarão colonial — infelizmente demolido — na Rua Marechal Floriano. Tinha cinco quartos e um imenso quintal que se estendia até a rua dos fundos, paralela à nossa. Quintais grandes eram, naquele tempo, uma espécie de território da infância. Cabia neles um universo.

Décadas se passaram e o nome Marechal Floriano voltou curiosamente à minha vida. Hoje, na maturidade, tenho um sítio na Mata Atlântica, próximo à cidade de Marechal Floriano, anteriormente chamada Vila do Braço Sul, devido ao braço sul do Rio Jucu que atravessa a região. Em 1900, a localidade recebeu o nome do segundo presidente da República, Floriano Peixoto.

Foi então que percebi outra coincidência: durante muito tempo, eu também nunca havia associado Florianópolis ao mesmo personagem histórico. A antiga cidade de Nossa Senhora do Desterro teve seu nome alterado para homenagear Floriano Peixoto, o chamado “Marechal de Ferro”, figura decisiva nos conturbados primeiros anos da República.

Uma descoberta bem menos histórica e muito mais pessoal acabou por me aproximar daquele homem ilustre: sua esposa chamava-se Josina. Éramos homônimas. Meu próprio nome que, confesso, nunca me agradou, chegara a mim por herança familiar. Meu avô materno chamava-se Josino. Pela onomástica, Josina corresponde à forma feminina de Josino, diminutivo de José, do hebraico Yosef, associado ao significado de “Deus acrescentará”.

Curioso é destino dos nomes: atravessam gerações, famílias e séculos. Às vezes, recebemos um nome antes mesmo de sabermos a história que ele carrega. E passamos a vida acrescentando a ele a nossa própria história.

RUA TEÓFILO OTONI


Meu pai, criado na vastidão do cerrado, parecia conservar no corpo uma necessidade de horizontes. Gostava de espaços amplos e do convívio com a natureza. Talvez a cidade jamais o coubesse inteiramente.

Por isso, resolveu comprar uma linda chácara — hoje inexistente — no final da Rua Teófilo Otoni, que, naquela época, praticamente terminava no Córrego do Monjolo. Hoje, a cidade avançou muito além dele. Plantaram-se espigões, no lugar da chácara.

Guardo, daquele local, lembranças que nenhum mapa registra: o belo pomar, a grande horta de legumes e verduras, a mina de água cristalina jorrando sem cessar... O terreno fazia divisa com o Córrego do Monjolo e também com as terras de uma figura quase lendária, embora absolutamente real: o famoso Joaquim Fubá, personagem querido da cidade, em torno do qual circulava, e ainda circula, uma infinidade de “causos”. Eu o conheci pessoalmente.

A meu ver, aquela rua bem poderia chamar-se rua Joaquim Fubá. Haveria nisso uma justiça poética: o nome de alguém que pisou aquela terra, conheceu aquela gente e passou a fazer parte de sua memória.

Em vez disso, coube-lhe o nome de Teófilo Benedito Ottoni (1807–1869), importante jornalista, político, comerciante e empresário do Império. Liberal convicto, foi deputado e senador, fundou A Sentinela do Serro e participou da Revolução Liberal de 1842. Também criou a Companhia de Comércio e Navegação do Mucuri, ligada ao projeto de povoamento e desenvolvimento do nordeste mineiro.

A antiga Filadélfia, fundada por ele, acabaria recebendo o nome de Teófilo Otoni, perpetuando a memória de seu fundador. Não lhe nego os méritos. Mas há momentos em que me pergunto por que nossas ruas precisam sempre buscar tão longe os seus homenageados, quando a memória de uma cidade também é construída por suas pequenas personagens — homens e mulheres que talvez nunca apareçam nos livros de História, mas permanecem vivos na lembrança de quem os conheceu. E essa pergunta me leva à última rua. A mais importante de todas, para mim.

RUA FRANCISCO NUNES VALADÃO


Todas as ruas onde morei em Patos de Minas levavam — e ainda levam — nomes de personalidades de alguma forma inscritas na História: Duque de Caxias, Silva Guerra, Marechal Floriano e Teófilo Otoni.

Há, porém, naquela cidade que sempre amei e onde vivi alguns dos melhores anos de minha juventude, uma rua diferente de todas as outras. Nela nunca morei. E, no entanto, nenhuma me pertence tanto: rua Francisco Nunes Valadão.

Soube de sua existência e fui conhecê-la há pouco tempo. Ao ver o nome dele gravado na placa da esquina, experimentei uma emoção difícil de explicar. Por um instante, tive vontade de comprar uma casa ali, pelo simples prazer de morar numa rua que repetisse diariamente o nome que durante toda a minha vida significou “pai”. Talvez ainda o faça.

Imagino que a maioria dos moradores daquela rua não saiba quem foi Francisco Nunes Valadão. Talvez nunca tenha sentido curiosidade em saber. Para eles, é apenas o nome de um logradouro.

Meu pai estudou somente em escola rural, mas passou a vida lendo, estudando, pesquisando. Era leitor contumaz de tudo quanto, segundo ele, pudesse ter alguma “serventia”: ciências físicas, biológicas e humanas. Ficção? Pura perda de tempo, dizia ele. Mal poderia imaginar que a filha caçula escolheria justamente aquilo que ele evitava: o território da invenção, da literatura, das histórias que talvez não tenham “serventia” alguma — a não ser a imensa serventia de nos ajudar a compreender a vida.

Se alguém pesquisar hoje o nome Francisco Nunes Valadão, encontrará diversos homônimos, alguns deles oriundos dos Açores, em Portugal, cujos registros genealógicos atravessaram os séculos. Há um Francisco Nunes Valadão nascido em 1623 e outro, cerca de um século depois, em 1732. Este último possui ramificações familiares em Minas Gerais. Talvez meu pai descenda dessa linhagem. Talvez não. A genealogia que mais me interessa não está nos arquivos; está na memória.

Procurei saber por que seu nome havia sido escolhido para aquele logradouro. Imaginei que fosse em razão das centenas de descendentes radicados na cidade. Disseram-me, entretanto, que a homenagem se devia ao fato de ele ter sido pai de um ícone da beleza patense dos anos 1960: Guiomar Nunes, primeira Rainha Nacional do Milho, que, antes mesmo dos dezoito anos, já havia sido eleita Rainha dos Estudantes, Rainha do Milho e Miss Patos.

Ri diante da explicação. Meu pai entrou para a geografia da cidade pela beleza de uma filha. Talvez ele, homem tão afeito à utilidade das coisas, achasse graça nessa ironia.

Não há feitos heroicos em sua biografia. Não comandou exércitos, não pacificou revoltas, não governou a República, não fundou cidades nem liderou movimentos políticos. A História, com inicial maiúscula, provavelmente jamais reservaria uma página para Francisco Nunes Valadão.

Mas há histórias em letras miúdas, que se fazem de trabalho, coragem, renúncia, família, exemplo e permanência. Quem o conheceu de perto sabe que sua vida bastaria para justificar o nome gravado numa esquina da Terra do Milho.

Hoje compreendo que as ruas de minha juventude me ensinaram uma coisa que eu não poderia saber quando menina: uma cidade não é feita apenas de pessoas cujos nomes constam em suas placas. É feita, sobretudo, daqueles que caminharam por suas ruas, ruelas e becos. Caxias, Silva Guerra, Floriano, Teófilo Otoni e tantos outros, só muito depois fui saber quem eram.

Talvez seja essa a mais bela travessura da memória: depois de uma vida inteira percorrendo ruas batizadas com nomes de homens que eu não conhecia, encontro, na cidade de minha juventude, uma rua onde nunca morei, mas que de algum modo, mora em mim.

28 de Agosto de 2026

 

Jô Drumond é escritora, tradutora juramentada e artista plástica. Já publicou 31 livros. Pertence a três academias de Letras: Afemil, AEL e Afesl. É colaboradora do Jornal de Patos, da Revista cultural Desleituras e publica na revista cultural Vida Livresca.

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