Por Jô Drumond
Ser pai é um verbo que se conjuga no cotidiano. Está no abraço que protege sem prender, na palavra firme que orienta sem ferir, na mão estendida que ensina a caminhar e que, pouco a pouco, aprende também a deixar partir. A verdadeira paternidade não se mede apenas pelos laços do sangue, mas pela generosidade da presença, pela paciência do cuidado e pela grandeza do exemplo.
No ensejo do Dia dos Pais, gostaria de render homenagem àqueles que fizeram da própria vida um abrigo, especialmente a meu pai, Francisco Nunes Valadão, e, por extensão, aos que caminham ao lado dos filhos, assim como aos que já partiram, mas continuam vivos na memória e na herança de seus valores.
Francisco Valadão, nascido no sertão mineiro na virada do século XIX para o século XX, perdeu o pai ainda criança. Sua mãe, a viúva Jacintha, viu-se só para administrar um grande latifúndio. Colocou, então, os filhos, desde tenra idade, na lida diária. Em sua concepção, bastava decorar a tabuada, saber ler e dominar as quatro operações para sobreviver lavrando a terra e campeando o gado.
Naquela época, havia a concepção de que o “abecê” era inimigo do bom desempenho no trabalho rural. Ninguém precisava ser letrado para capinar, roçar o capim, campear rebanhos...
Um de seus filhos, Francisco, não se conformava. Queria prosseguir nos estudos. Para isso, teria de se mudar para a cidade de Coromandel. Sua mãe não permitiu que partisse e, além disso, proibiu-o de estudar sozinho. As letras, segundo ela, só serviriam para tirá-lo do caminho certo.
Não se dando por vencido, sempre que ia à cidade, Francisco comprava livros de ciências físicas, biológicas e exatas. Escondia-os a sete chaves. Ao sair para trabalhar, colocava um livro dentro do embornal. Estudava na roça, assentado em pedras, em troncos caídos ou até mesmo em cupinzeiros desativados.
Seu interesse por textos científicos e informativos manteve-se por toda a vida. Depois de adulto, adquiria enciclopédias, almanaques e tudo quanto pudesse enriquecer seus conhecimentos. Diferentemente de sua mãe, ele atribuía suma importância aos estudos. Tanto é que criou a primeira escola rural da Charneca, inicialmente instalada nas dependências de sua fazenda, mais especificamente no paiol. Suas filhas mais velhas, que haviam estudado na cidade, ministravam as aulas. Aos poucos, a escola foi crescendo e acabou ganhando sede própria, do outro lado do rio.
Naquela época, eu ainda não existia. Como filha temporã, a grande diferença de idade entre mim e meu genitor deu-me o privilégio de tê-lo como um misto de pai e avô.
Lembro-me de que nossas peraltices infantis, muitas vezes, atrapalhavam sua concentração durante a leitura. Sempre que penso nele, vem-me à mente a imagem de um leitor contumaz, quase centenário, curvado pelo peso dos anos, tendo nas mãos um jornal, uma revista, um livro ou qualquer texto que lhe alimentasse a curiosidade.
Enfim, o tempo pode levar a voz, o abraço e a presença, mas jamais apaga o amor (no meu caso, o amor pelas letras) que um pai semeou. Ele tem a estranha vocação das árvores: continuar florescendo na vida dos filhos.
Parabéns aos pais de outrora, aos de hoje e àqueles que ainda virão.
Jô Drumond é escritora, tradutora juramentada e artista plástica. Já publicou 18 livros. Pertence a três academias de Letras: Afemil, AEL e Afesl. É colaboradora do Jornal de Patos, da Revista cultural Desleituras e publica no próprio blog.
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