Afinal, existe ou não existe uma Rua Che Guevara em Patos de Minas?

Por Caio Machado

Isto é uma montagem feita no MSPaint e Canva!

Volta e meia os políticos patenses protagonizam episódios enfadonhos, na maioria das vezes, motivados por questões ideológicas. Não vou entrar em pormenores, porque na maioria dos casos, o melhor a se fazer é esquecer... Já que vivemos numa era em que quanto mais relembramos atos patéticos, mais fortalecidos ficam os seus praticantes.

Eis que na última quinta-feira (13), a jovem vereadora Brenda Évellyn (Novo) colocou em pauta para votação na Câmara Municipal, o Projeto de Lei (PL) de número 6.796/2026 para nomear a atual rua A-20, do Bairro Barreiro, para “Matheus Augusto Azevedo”, em homenagem ao recém-falecido irmão do senador Cleitinho, também postulante a governador de Minas Gerais, ao lado do ex-prefeito de Patos de Minas Luis Eduardo Falcão, ambos do partido Republicanos.

Divinopolitano, Matheus faleceu no último dia 18 de julho em decorrência de leucemia e a vereadora (provavelmente surfando na gigante onda de popularidade de Cleitinho, que inclusive quase ficou de fora da corrida pelo governo por conta do luto), decidiu homenagear este rapaz, que muito provavelmente nunca pisou em solo patense. Não que ser nativo ou morador de Patos de Minas seja requisito prévio para servir de homenagem aos logradouros patenses...

Durante a votação, o PL foi retirado de pauta a pedido do vereador Mauri da JL (PL) e a jovem parlamentar, de caso pensado, já possuía uma carta na manga para justificar a homenagem para o forasteiro: A existência de uma rua chamada Che Guevara, nomeada pelo ex-vereador Bosquinho do PT no longínquo ano de 2014, por meio do Projeto de Lei de número 4.032.

"Vocês conhecem Che Guevara?"

No discurso que foi recortado da transmissão da Câmara e reproduzido por todos os portais patenses e vários outros por Minas Gerais afora, a vereadora conta como Guevara participou de violentos fuzilamentos contra seus opositores na revolução cubana, em detrimento de Matheus, cuja única luta, foi contra o câncer, por 18 anos, o que seria algo inspirador para os patenses. E que também justificaria a homenagem.

Em seguida, mesmo com a retirada do PL, a discussão se acalorou e o parlamentar que pediu vista, chegou a dizer que estava apenas atendendo a demanda de um eleitor, que preferiria que um patense fosse homenageado e ainda disse que não se opunha a nada e a ninguém, terminando sua sentença com um sonoro: “põe o caralho que quiser aí”.

Toninho Cury (União Brasil) saiu em defesa da Rádio Clube, citada na fala da vereadora, dizendo que a discussão da rua Che Guevara não vinha ao caso para aquela legislatura, pois eles sequer eram vereadores em 2014. Mas curiosamente, seu colega de partido e de trabalho na rádio, Otaviano Marques, foi o relator do PL 4.032/2014, aprovando inclusive, a constitucionalidade do mesmo.

E foi justamente a falta de informação sobre a tal Rua Che Guevara que motivou a feitura deste artigo.

Quando fiquei sabendo da discussão, por mera curiosidade jornalística pesquisei no Google Maps sobre a tal rua que homenageava o guerrilheiro argentino e não encontrei nada de concreto. Em seguida, fui até o site da Câmara de Patos de Minas, pesquisei pelo PL do Bosquinho e pela lei sancionada pelo então prefeito Pedro Lucas Rodrigues e de fato, me deparei com o vigor da mesma.

Buscando ainda em um nostálgico catálogo telefônico de 2019 da Algar, encontrei a menção da rua na seção de endereços, mas ela não aparecia com indicação no mapa do Bairro Coração Eucarístico. Em contrapartida, a Rua 01, que supostamente deveria se chamar Che Guevara, aparecia na página 1 da seção de mapas, ainda com seu nome inalterado. Para tirar esta história a limpo, decidi ir pessoalmente ao local para averiguar.

Para minha surpresa, a Rua 01, hoje se chama rua Zilma dos Reis Xavier!

Quem conhece o Bairro Jardim Quebec (praticamente uma extensão do Bairro Coração Eucarístico), sabe que as ruas do local eram referidas apenas por seus números, antes de serem renomeadas. Alguns destes números estão pichados nos postes das esquinas das ruas, ainda servindo de referência aos moradores e visitantes do bairro. Inclusive, seguindo a ordem da numeração, a Rua 01 deveria ser a última do bairro, mas, entretanto, ela se chama rua Maria Nunes da Silva.

Pesquisando sobre a rua Zilma dos Reis Xavier, constatei que em 21 de julho de 2014, a vereadora Edimê Avelar havia apresentado e aprovado o projeto de lei Nº 3.975/2014, pedindo pela alteração do nome da rua 01 para o referido nome. Quatro meses antes do Bosquinho apresentar o projeto que pedia pela homenagem ao revolucionário marxista! A discrepância aqui, fica por conta das quadras descritas em cada PL. No projeto de Edimê, as quadras referidas do setor 43 são as de número 17 e 18. Já o PL de Bosquinho, faz referência à quadra de número 19.

Ambos os projetos foram aprovados sem ninguém perceber que se tratava do mesmo endereço!

Como toda boa pesquisa não é feita na superfície e muito menos por resumos sedutores e equivocados das cômodas Inteligências Artificiais, continuei perscrutando o assunto. E eis que descobri que a suposta rua voltou a ser discutida em 14 de fevereiro de 2019, por meio do projeto de lei de número 4.842, também de autoria de Bosquinho, que desta vez denominaria Che Guevara a então Rua 3, localizada no Bairro Planalto.

Decidi assistir à transmissão da reunião e encontrei uma fala do vereador Bosquinho às 2 horas, 7 minutos e 35 segundos explicando que pelo fato do PL de Edimê ter sido aprovado antes do seu, resultou com que a rua de fato nunca tenha sido nomeada em homenagem a Guevara. Na ocasião, o ex-vereador petista ainda retirou o projeto, afirmando que teria sido inclusive ameaçado nas redes sociais e alertado sobre não ser um bom momento. Ele prometeu que voltaria a tentar renomear alguma rua da cidade, com o nome, mas nunca o fez.

Agora fica o questionamento: se o papel do vereador é legislar e fiscalizar, por que a vereadora não fez o seu dever de casa e pesquisou se de fato a rua Che Guevara por algum momento chegou a existir? Minha resposta pode ser mais curta do que correta: o objetivo dela não era provar o próprio ponto ao homenagear um forasteiro e sim inflamar a opinião pública envolvendo um polêmico personagem da esquerda e um da direita, em ainda mais evidência, para viralizar na internet. E ela conseguiu.

Na minha concepção, o correto é de fato renomear as ruas da cidade com nome de figuras patenses. Não faz sentido nenhum consagrar personalidades ambíguas como Guevara, tido como herói por esquerdistas e como assassino por direitistas e muito menos, irmãos de políticos, que até outro dia ninguém sequer tinha ouvido falar e que só conheciam por “Irmão do Cleitinho”. Sabe-se lá quantos irmãos ele tem e menos ainda quais são os seus respectivos nomes.

Pior do que homenagear forasteiros, é não saber, por exemplo, quem foi Major Gote, quem foi qualquer um dos membros das famílias rivais Maciel e Borges ou quem foram os demais patenses que ilustram nossos logradouros. Me dá a falsa sensação de que o nome da rua, só serve para se obter capital político para os vereadores momentaneamente (com familiares e amigos de homenageados) e que sem a devida explicação, as honrarias se tornem futuramente meros endereços nos aplicativos de entregadores de comida ou dos motoristas do Tio Patinhas e afins.

"Eu vou voltar com essa rua de novo!"

Meu padrinho Rômulo Marcos de Oliveira, por exemplo, que infelizmente nunca conheci, faleceu em decorrência de uma pancreatite em 1º de agosto de 1992. Dois anos depois, o também finado prefeito Jarbas Cambraia sancionou o PL 3.800/1994 que deu nome a um logradouro homenageando-o no Bairro Ipanema. Pergunte aos moradores do local se algum deles sabe dizer quem foi Rômulo Marcos e o que ele fez de notório pelo nosso município?

Rômulo fundou a primeira pizzaria de Patos de Minas. A pizzaria Aeroporto na Avenida JK, que anos depois deu lugar ao saudoso Liverpool Pub e que hoje demolido, deu lugar a diversos galpões para fins comerciais diversos. Não é preciso muito para ser homenageado e menos ainda para ser esquecido. E agora eu pergunto a você leitor patense, se faz ideia de quem é a pessoa que dá nome às ruas em que você reside, trabalha e visita amigos e familiares.

Uma Câmara Municipal brigar por nomes de pessoas homenageadas em ruas da cidade, diz muito sobre a qualidade do que se é trabalhado por ali. Enquanto isso for mais chamativo do que pautas realmente relevantes para a melhoria do município, estaremos votando em vão. E não se esquecem de que quando esses vereadores falecerem nas próximas décadas, ruas da cidade também irão homenageá-los se, claro, não estiverem tomadas por nomes de forasteiros. 


Caio Machado é bacharel em Jornalismo pela Universidade do Estado de Minas Gerais. Pós-graduado em Jornalismo Digital, além de editor-chefe do Jornal de Patos é produtor musical e artista independente.

🦆

Apoie o jornalismo independente colaborando com doações mensais de a partir de R$5 no nosso financiamento coletivo do Catarse: http://catarse.me/jornaldepatos. Considere também doar qualquer quantia pelo PIX com a chave jornaldepatoscontato@gmail.com.

Postar um comentário

0 Comentários