História de uma traição: Jorge Luis Borges e Joaquim Silvério dos Reis

 Por José Eduardo de Oliveira

A Antônio Luiz Vieira

Hotel Toffolo – Rua Tiradentes – 1946

Em julho de 1945, o escritor argentino, Jorge Luis Borges, esteve em Ouro Preto, onde permaneceu por quase um mês. Seus propósitos - segundo ele -, não tinham nada a ver com a carta manuscrita de Gunnar Erjord, que “... elucidava completamente o mistério de Tlön” (Tlön, Uqbar, Orbis Tertius), e que tinha sido carimbada e postada naquela cidade na agência dos Correios e Telégrafos da Rua Direita.

Não que Ouro Preto ou o Brasil, significasse alguma coisa para ele, que sempre teve preferência pela América do Norte ou o Oriente em suas narrativas fora da América Latina. A ideia de retomar, sua “História universal da infâmia” e o “tema do traidor e do herói”, foi que o levou a fazer aquela difícil e penosa viagem em lugar tão remoto, no coração das Minas Gerais. Ele havia lido sobre a “Inconfidência Mineira” na primeira edição da “História do Brasil”, de Robert Southey, publicada em inglês em 1810 e gostaria de escrever ou inserir, em uma futura “História Latino-americana da infâmia” ou em uma outra coletânea, a história não do desditoso e heroico Alferes, Joaquim José da Silva Xavier, dito o Tiradentes, daquela inconfidência, mas do execrado Joaquim Silvério do Reis, o traidor.  Para ele, o espelho do traidor trazia sempre a imagem do herói, ainda que somente o espelho soubesse disso.

Mas, desta vez gostaria de ir ao cenário real e irreal da trama e de conhecer a antiga Vila Rica onde já estiveram outros estrangeiros insignes, tais como o inglês Richard Burton, o francês Saint-Hilaire, ambos no século XIX - o primeiro, aliás, esteve em Meca disfarçado de muçulmano, e seria um dos descobridores das nascentes do Rio Nilo. Também, um amigo português, lhe havia falado de um manuscrito do Conde Assumar, que governou Minas por volta de 1720, quando teve de enforcar outro inconfidente, Filipe dos Santos e, que, ali, “A terra parece que evapora tumultos; a água exala motins; o ouro toca desaforos; destilam liberdade os ares; vomitam insolências as nuvens; influem desordens os astros; o clima é tumba da paz, o berço da rebelião”.

Borges queria sentir o cheiro da “Potosí brasileira”, onde tanta traição e infâmia haviam escrito com ouro, fogo e sangue a história daquela cidade magnífica e espectral. E o cenário da que poderia ter sido a primeira independência brasileira, feita de fato por brasileiros, era propício para uma narrativa onde a figura, não do herói Joaquim José - cuja cabeça havia sido “exposta em poste de ignomínia” na praça central da antiga Villa Rica, até que o tempo a consumisse -, mas do traidor Joaquim Silvério, cuja memória se encontrava submersa em brumas, as mesmas brumas que naquela época do ano eram tão densas e viscosas que podiam ser palpáveis. As brumas, umas corrubianas frias que faziam desaparecer os casarios, os incontáveis campanários, as escarpas talcosas e nuas dos arredores e as efígies de homens e animais, ainda que fosse de dia. Sim, seu interesse era pelo obscuro português, Silvério dos Reis, mas não queria fazer um relato histórico do delator, mesmo porque isso seria quase que impossível por falta de evidências e fontes escritas, pois no Brasil, eles esquecem até mesmo os heróis, quanto mais os traidores.

Entretanto, ele queria ser o mais plausível com relação aos verdadeiros motivos da traição de Silvério dos Reis, já que achava pouco provável que ele tenha feito sua delação naquele infausto ano de 1789, apenas para se livrar de dívidas do tempo em que ele era contratador dos direitos de entradas na Capitania de Minas. Apesar de que a delação foi “premiada”, digamos assim, e regiamente compensada e o “Judas” teve o perdão das suas dívidas e saiu ileso, no entanto teve que se mudar de Minas Gerais e acabou tendo que exilar-se no nordeste brasileiro, contudo, continuou sob a condição de “fiel vassalo”, inclusive com mais de um sobrenome: Montenegro ou Leiria (que até então não usava nunca).

Para Borges, o motivo da traição era de natureza mais simples e delicada: era uma traição semântica.  Ou seja, para os mineiros Silvério dos Reis era um traidor que abortou a república brasileira. Para os Reis, os brasileiros é que eram traidores e que cometeram “o crime de lesa majestade”, já que eram colonos e deviam fidelidade à rainha Maria I, de Portugal, a Louca.

O significado do traidor e do herói, portanto, não passaria de pontos de vistas e dependeria do enunciador. E os traidores foram os que conspiravam em conventículos juntos com o alferes que foi enforcado e perdeu a cabeça, literalmente. Se os “inconfidentes”, à maneira dos americanos das 13 colônias, se sentiam lesados, eles também deveriam conjurar e se libertar, era esse o espírito do tempo. Assim, o traidor dos inconfidentes era herói para os portugueses e os inconfidentes seriam heróis para os mineiros, mas isso aconteceu muito tempo depois.

No século XVII, outro traidor, Domingos Fernandes Calabar, natural de Porto Calvo, Alagoas, também faria opção e trairia seus conterrâneos. Só que com um detalhe, era brasileiro e se opôs aos brasileiros, ou melhor, aos portugueses-brasileiros (ou luso-brasileiros) em defesa de outros colonizadores, os holandeses. Este episódio, também havia interessado a Borges, sobretudo porque nesta traição, quem foi enforcado não foi o herói que lutava contra outros colonizadores, mas o traidor que lutava a favor dos colonizadores holandeses. E, diga-se de passagem, se existisse algum tipo de colonização boa, a dos holandeses seguramente, foi considerada melhor para o mulato Calabar.

Borges, dizem, ouviu depoimentos no Hotel Tóffolo. Neste mesmo hotel, de onde se podia avistar sobressaltado e irrequieto o portentoso prédio de “Casa dos Contos” onde o poeta Cláudio Manoel da Costa, um dos inconfidentes foi encarcerado, foi encontrado morto no mesmo ano da delação, e assim, pode concluir perplexo e frustrado,  que se ele não fosse embora rapidamente para Buenos Aires, era ele que seria enforcado, já que a História já havia acontecido e mais, já estava escrita e que Joaquim Silvério dos Reis tinha feito a delação simplesmente para se ver livre de suas dívidas e receber favores da coroa portuguesa. E que ali, na mesma rua que tinha o nome do herói enforcado, Tiradentes, era inconcebível, outra história, com outro desfecho, ainda que ficcional.  Naquele lugar, ouvindo diuturnamente o repicar dos sinos, o herói seria sempre o herói e o traidor seria sempre o traidor e não valia a pena serem lembrados, quanto mais serem questionados e serem enredos de alguma narrativa...

Borges, nunca mais voltou ao Brasil.  Nunca mais tocou no assunto e suas anotações, seus manuscritos inéditos sobre os “inconfidentes”, foram lacrados em um envelope de pergaminho e postado ali mesmo para um destinatário ignorado numa tarde brumosa e fria. Naquele dia a névoa corrubianosa era tão espessa que Borges ao retornar para o hotel cruzando a ponte dos Contos, teve a impressão que se encontrava no Século XVIII e a qualquer momento surgiria um oficial da tropa paga do regimento de Vila Rica e o levaria preso por conspirar contra a História oficial do Brasil português...


P.S.: Um Joaquim mineiro queria criar uma pátria que não existia e o outro Joaquim estrangeiro não permitiu e o delatou para pessoas de outra pátria que abortou o nascimento de outra pátria, a brasileira. Ainda hoje brasileiros querem entregar nossa pátria para estrangeiros. Outro dia mesmo o presidente da República, citou Joaquim Silvério dos Reis ao se referir a um candidato lesa-pátria.

 

Escrito em 1993 em Uberaba - Revisto em 1999 e 2026. 


José Eduardo de Oliveira é licenciado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto

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